Os limites do multilateralismo

Organização da coalizão contra a Líbia é marcada por um processo obscuro, mostra que há divisão entre aliados e sofre com a falta de objetivos específicos e claros

David Brooks, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2011 | 00h00

Nestes dias, pertencemos todos à mesma religião: a igreja do multilateralismo. A guerra no Iraque lembrou a todos que não se deve empreender um esforço internacional sem uma coalizão. Mas hoje, enquanto uma força multilateral intervém na Líbia, começam a aflorar velhos ressentimentos que nos lembram que, se o unilateralismo não é um passeio no parque, o multilateralismo tem problemas.

Primeiro, as iniciativas multilaterais costumam ser marcadas por um processo de decisão pouco transparente e pela indefinição estratégica. É difícil fazer com que líderes de diferentes nações concordem a respeito de um plano de ação comum. O processo de decisão que conduziu à intervenção líbia foi obscuro e as nações não definiram de fato o que pretendem.

Em segundo lugar, os líderes de iniciativas multilaterais, muitas vezes, estão obcecados pelo processo diplomático e ignoram a realidade de um país. As notícias que descrevem o planejamento da intervenção na Líbia estão cheias de intrigas palacianas. Referem-se a diferentes facções no governo Obama, ao confronto entre França e Grã-Bretanha, aos esforços para atrair a Liga Árabe.

Ninguém se preocupa com a realidade na Líbia. Quem são os rebeldes? Até que ponto Kadafi é fraco? Como reagirão os líbios a um ataque do Ocidente? Por que deveríamos achar que uma zona de exclusão aérea protegerá os civis? Como em tantas iniciativas multilaterais, os diplomatas estão mais preocupados em servir à arquitetura global do que em se envolver nos fatos concretos.

Em terceiro lugar, as iniciativas multilaterais são prejudicadas e, muitas vezes, acabam imobilizadas por uma autoridade dispersa e por um complicado processo de tomada de decisões. Elas demoram a decolar porque precisam da adesão de membros relutantes. E, ao deslanchar, demoram a adaptar-se à mudança das circunstâncias. A coalizão já apresenta rachaduras. A Liga Árabe critica os primeiros resultados. Não existe coordenação entre franceses e aliados. A Otan está presa em um debate sobre a estrutura do comando operacional.

Em quarto lugar, as forças multilaterais, frequentemente, perdem a guerra da confiança e da motivação. A maioria das batalhas é travada por nações movidas por princípios morais comuns e por lealdades de grupo. São organizadas pelas elites e impulsionadas pelo cálculo, não pelo patriotismo. Ninguém quer morrer pela Liga Árabe, pela ONU ou por alguma coalizão temporária. Na campanha líbia, os defensores de Kadafi lutarão pela terra, pela família, por Deus e pelo país. A força multilateral será organizada por uma sigla e motivada por um objetivo humanitário.

Finalmente, esforços multilaterais são montados em torno de uma ficção. Os países da coalizão fingem que todas as partes arcam com uma parte igual do ônus. Na realidade, somente os EUA têm condições de realizar grande parte das tarefas. Tudo isto não significa que o mundo não deva se envolver. Isto não é uma defesa do unilateralismo, mas não deveríamos fingir que descobrimos uma maneira perfeita de combater uma guerra. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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