Os limites do rótulo islâmico

Por que esvaziar o caráter religioso da ideologia radical, como faz Obama, tem sentido

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2015 | 02h04

O presidente americano, Barack Obama, está sendo acusado de manter uma postura "politicamente correta" por não querer acusar grupos como o Estado Islâmico (EI) de "extremismo islâmico", preferindo um termo mais genérico, "extremismo violento". Segundo seus críticos, não se pode lutar contra um inimigo que não se quer identificar. São seus próprios partidários que acham sua abordagem "professoral".

Mas, longe de ser um estudioso preocupado em descrever o fenômeno com precisão, o presidente opta deliberadamente por não enfatizar a dimensão religiosa do EI por motivos políticos e estratégicos. Afinal, o que acarretaria em termos práticos descrever o grupo como islâmico? O Ocidente intensificaria seus bombardeios sobre ele? Mandaria mais soldados para combatê-lo? Não, mas levaria muitos muçulmanos a achar que sua religião foi injustamente desacreditada. E os líderes muçulmanos se sentiriam desalentados, depois de denunciarem incansavelmente o EI como um grupo que não representa o Islã.

Mas "o Estado Islâmico é islâmico", escreve Graeme Wood, num estudo para a revista The Atlantic deste mês que foi muito debatido. O estudo de Wood é um relato inteligente e detalhado da ideologia na qual se baseia o EI. Não se trata de pessoas seculares com objetivos racionais, ele afirma; na realidade elas acreditam em sua ideologia religiosa.

Mas o estudo de Wood me lembra de alguns textos emocionantes da Guerra Fria que enfatizavam que os comunistas acreditavam piamente no comunismo. Evidentemente, muitos líderes do EI acreditam em sua ideologia. A questão fundamental é: por que esta ideologia surgiu neste momento e por que é tão atraente para um grupo - na realidade, um grupo muito reduzido - de muçulmanos? Segundo Wood, o EI é um movimento que "ressuscitou tradições que ficaram latentes durante centenas de anos". Exatamente, o EI redescobriu - e reinventou - uma versão do Islã que hoje atende a seus objetivos.

Ele observa que os seguidores do grupo visam um "autêntico retrocesso ao Islã original". Ou seja, o Islã praticado no deserto há 1.400 anos.

Medieval. Evidentemente, o ponto mais importante não é o fato de o Islã medieval conter muitas práticas medievais, como a escravidão (que, aliás, também aparece com destaque na Bíblia), e sim o motivo pelo qual essa versão do Islã encontrou seguidores hoje.

Wood é muito apreciado pelo acadêmico de Princeton Bernard Haykel, que afirma que as pessoas fecham os olhos para a ideologia do EI por motivos políticos. "As pessoas querem absolver o Islã", como diz Haykel. E, afirma Wood: "O refrão é sempre 'O Islã é uma religião de paz'. Como se este 'Islã' existisse! É o que os muçulmanos fazem". Correto. Há 1,6 bilhão de muçulmanos no mundo e os membros do EI são talvez 30 mil. E, no entanto, Haykel acha que o pensamento de 0,019% dos muçulmanos define a religião.

Eu pergunto: Quem está sendo político? "A questão mais interessante a respeito das ideologias é: o que faz com que sejam sempre bem-sucedidas?", pergunta o professor Sheri Berman, do Barnard College. "Uma ideologia lança suas raízes quando substitui um outro ideário que fracassou". Em todo o Oriente Médio, as ideias que falharam são conceitos como o pan-arabismo, o socialismo e incipientes tentativas no campo da democracia, do liberalismo econômico e do secularismo. Os regimes que adotam estes princípios em geral transformam-se em ditaduras repressivas, produzem a estagnação econômica e o atraso social. Em alguns casos, a própria nação entra em colapso. É em razão deste fracasso que grupos como o EI podem dizer: "O Islã é a resposta".

Esta guerra de ideologias pode ser constatada de maneira vívida na vida de um homem, Islam Yaken, descrito de maneira brilhante por Mona El-Naggar, do jornal The New York Times. Islam, um professor de academia de classe média do Cairo, estava interessado principalmente em ganhar dinheiro e conhecer garotas. "Todo homem sonha em ter uma barriga tanquinho para poder tirar a camisa na praia ou na piscina e atrair os olhares das pessoas", ele disse num vídeo, rodado há dois anos.

Mas "estes sonhos esbarraram na depressão econômica e no torvelinho político do Egito", observa o artigo. Sem conseguir um bom emprego, ele começou a sonhar em deixar o Egito. Quando a revolução democrática do seu país fracassou e a ditadura militar voltou, sua alienação política aumentou. Questionando suas próprias escolhas de vida, Islam foi atraído por uma ideologia muito diferente, uma versão rigorosa e militante do Islã.

Aos 22 anos, ele combate para o EI na Síria. Durante o último Ramadan, ele tuitou uma fotografia de uma pessoa decapitada. O texto dizia: "Com certeza, o feriado não seria completo sem a imagem do cadáver de um dos cães".

Islam Yaken acredita com total convicção. Mas a questão é: como chegar a esse ponto? E quais foram as forças que contribuíram para fazê-lo chegar lá? Chamá-lo de islâmico não ajuda muito a compreender este fenômeno. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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