Os malfeitores da América Latina e seus facilitadores

Uma tragédia ainda maior na América Latina pode ser evitada se ressurgir a coragem nos líderes sem voz das democracias vizinhas

Otto J. Reich*, Foreign Policy/O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2014 | 02h07

Edmund Burke Bassil da Costa era estudante universitário na Venezuela. Frustrado com a deterioração das liberdades no seu país como resultado dos crescentes abusos de poder do presidente Nicolás Maduro, Costa marchava pacificamente com seus colegas no dia 12 em Caracas, protestando contra o que prejudica sua geração: a obscena corrupção oficial, a escassez de alimentos e remédios no país dono das maiores reservas de petróleo no mundo e a crise na segurança pública que fez da Venezuela o terceiro país mais violento do mundo.

Era a primeira vez de Costa numa manifestação contra o governo. Ele foi morto com uma bala na cabeça disparada por forças de segurança uniformizadas enviadas para dispersar a manifestação pacífica. Outro estudante morreu naquele dia. Vídeos e fotos da Venezuela expõem os abusos do governo: jovens indefesos e ensanguentados nas ruas sendo atacados por soldados, policiais e gangues de bandidos organizadas pelo governo.

Maduro respondeu ao derramamento de sangue perseguindo as vítimas, e não pedindo que os responsáveis fossem trazidos à Justiça. Ele ordenou a prisão do jovem líder político que comandou as marchas pacíficas, Leopoldo López, acusado de assassinato.

Conforme as imagens de cadáveres como a de Costa rodam o mundo, na América Latina nenhum governo eleito protestou. Temos que dar crédito ao departamento de Estado dos EUA por ter condenado os ataques do governo Maduro contra a população.

As ordens para matar são dadas pelo regime comunista em Cuba, o verdadeiro poder em Caracas, há muito acostumado a assassinar os adversários. As ordens são seguidas por funcionários do governo venezuelano, a começar pelo presidente "ilegítimo", Maduro, cuja eleição no ano passado foi amplamente contestada por observadores.

De acordo com relatos, há mais de 50 mil cubanos na Venezuela, incluindo representantes dos serviços civil e militar de segurança e da comunidade de espionagem. Eles supervisionam todas as agências estratégicas de comunicação, espionagem e segurança nacional. Em troca, a Venezuela dá a Cuba 120 mil barris de petróleo diariamente - o equivalente a cerca de US$ 5 bilhões por ano -, sendo a maior fonte de renda da ilha. A segunda e terceira maiores fontes de renda de Cuba também são estrangeiras: o turismo e o aluguel de médicos ao exterior, uma forma moderna de servidão por meio da qual o governo cubano mantém três quartos do salário pago aos médicos por países de terceiro mundo como o Brasil.

Winston Churchill escreveu que a tragédia da 2.ª Guerra poderia ter sido evitada se os governos democráticos da Europa tivessem a coragem de enfrentar a agressão nazista desde o começo. O aprofundamento da tragédia na América Latina ainda pode ser evitado. Mas somente se ressurgir a coragem nesses "líderes" curiosamente sem voz das democracias vizinhas.

Para os EUA, há muitas lições no que está ocorrendo na Venezuela. Uma delas é que por mais que outros países aplaudam a liberdade, a democracia e os direitos humanos, ainda há apenas um país disposto a defender esses valores quando são ameaçados: os EUA. A segunda lição mostra que, a não ser que os governos da América Latina mudem sua política de dois pesos e duas medidas em relação às ditaduras, os EUA não devem prestar atenção quando um chefe de estado latino-americano finge discursar em defesa da democracia.

Esses governos convenientemente cegos raramente falam contra as violações dos direitos humanos ou a corrupção por parte de regimes de esquerda como os de Cuba, Venezuela, Equador, Argentina, Bolívia ou Nicarágua. Os esquerdistas são os únicos autoritários no poder na América Latina atual, e presidentes eleitos e primeiros-ministros sem força de vontade que não se importam com aquilo que acontece com a liberdade e a decência do outro lado de suas fronteiras estão facilitando tal autoritarismo.

Hoje, o mal está na Venezuela e em Cuba, onde dissidentes pacíficos também são espancados e acossados em seus lares ou abandonados para morrer na prisão.

Edmund Burke foi profético: o mal triunfa na América Latina, porque os homens e mulheres que imaginávamos serem bons decidiram entrar em conluio com facínoras, tentando ganhar tempo para sua própria sobrevivência, esperando que os agressores fiquem saciados antes de consumirem os conciliadores.

*Otto J. Reich foi representante do governo de George W. Bush para América Latina em 2002. Durante a tentativa de golpe contra Hugo Chávez, no mesmo ano, garantiu que ele havia renunciado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.