Os meninos-soldados da África

Desde a guerra da Libéria, em 1989, crianças combatem em muitas regiões da África

Gilles Lapouge, de O Estado de S. Paulo,

26 de novembro de 2008 | 09h02

Com o novo abrasamento do Congo, voltam a nossas vistas uma das invenções mais tétricas de nosso tempo: aqueles "meninos-soldados" que desde a guerra da Libéria, em 1989, combatem em muitas regiões da África.No Nord-Kivu, o general Laurent Nkunda que comanda a revolta contra os soldados do governo legal da República Democrática do Congo utiliza esses meninos. Imagens nos mostram essas crianças. Pequenas, indiferentes, além do bem e do mal, da pena e do horror, elas carregam com altivez, grotescamente, metralhadores ou fuzis Kalashnikov tão grandes como elas.Uma outra guerra que se desenrola não mais no Congo, mas no Sudão, consome muitos meninos, a de Darfur, que opõe as tropas do governo de Cartum a populações nômades. Esses nômades são massacrados pelas milícias de Cartum. Eles replicam desenvolvendo seu próprio exército, um exército rebelde que recruta crianças. Mais de 10 mil foram recrutadas segundo a Unicef do Sudão.Quem são esses meninos? Eles têm de 9 a 14 anos. Em geral, unem-se aos rebeldes porque viram seus pais serem assassinados debaixo de seus olhos pelas milícias de Cartum, os terríveis janjawids (os "cavaleiros do demônio").Hassan tem 13 anos. "Os janjawids invadiram a aldeia. Eles viram meu pai doente. Eles lhe disseram, ´Você é velho`, e o mataram. Minha mãe se jogou sobre meu pai. Os janjawids dispararam uma segunda rajada." Hassan fugiu e procurou um acampamento rebelde para aprender a matar, para se vingar dos janjawids. Agora, ele mata.Esses diálogos nos foram trazidos por Larisse Houssou. cujos artigos receberam o prêmio da Comissão Européia dos Direitos Humanos. Houssou nos mostra um outro menino, Boubacar (13 anos, mas combate desde os 9). Ele é chamado de "o matador". Sua especialidade: arrastar os prisioneiros sobre pedregulhos, dilacerando-os até a morte.  Njaima, 11 anos, é "o cortador". Ele oficia quando é preciso mutilar um inimigo. Quantos ele supliciou? Ele conta nos dedos. Dez. "Depois, eu não sei mais contar." Uma de suas lembranças: um dia, seu chefe lhe ordenou que cortasse dois dedos de cada mão de um prisioneiro. Njaima não tinha faca. Foi preciso utilizar uma tenaz, "mas não foi fácil". Samir tem 14 anos. Ele aprendeu seu ofício nas escolas de guerrilha que os rebeldes mantêm no deserto. "Nós debatemos problemas políticos e sociais. Como não vamos à escola, isso nos instrui um pouco."No mês passado, o chefe ordenou a Samir para degolar dois janjawids. Ele os fez ajoelhar, a cabeça abaixada, pés e mãos já arrancados, e os decapitou a golpes de facão. Samir pensou em seus irmãos e irmãs que os janjawids haviam decapitado.Um belo documentário ("Johnny Mad Dog") foi exibido em Paris. Ele mostra meninos-soldado da Libéria. Silhuetas grotescas atravessam a tela, trajando uniformes surrealistas, uma mistura de uniformes de batalha, jeans e vestidos de noiva recuperados dos ataques. Esmagados sob o peso de suas armas e munições, esses pequenos seres abandonados ocupam a savana como grandes insetos de pesadelo.Nos arredores de uma grande cidade, um grupo de meninos aterroriza adultos. Um escolar vai ao encontro de seu pai. Os meninos-soldado agarram o escolar, o obrigam a abater seu pai. Um menino-soldado a mais!

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