Abdulmonam EASSA / AFP
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Os motins de Paris

Pelas redes sociais, grupo espalha teoria conspiratória sobre Pacto de Marrakesh

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2018 | 05h00

Um texto inunda as redes sociais, especialmente o Facebook. Foi lido centenas de milhares de vezes, principalmente pelos “coletes amarelos”, que desafiavam o presidente e se preparavam para viver um dia de loucura e perigo hoje nas ruas de Paris. O que diz o texto? Ele denuncia o “Pacto de Marrakesh”, que Emmanuel Macron deve assinar na segunda-feira. Ao assinar o acordo, segundo explica o Facebook, “Macron venderá a França para a ONU”. “Você deve impedir Macron de fazer isso no dia 10 de dezembro”, diz o texto.

O Pacto de Marrakesh é realmente perturbador. Ele abre as portas do país de maneira massiva para os imigrantes. Segundo o texto do Facebook, ele “prepara a chegada à Europa dos 480 milhões de imigrantes que assegurarão o que é chamada de ‘a Grande Substituição’, ou seja, a substituição de franceses e europeus pelos imigrantes que vão se apoderar do Velho Continente”.

A artimanha dessas pessoas que conduzem essa operação pelas redes sociais é que a informação é correta e vem realmente da ONU. A diferença é que esse texto foi escrito pela ONU para enfrentar a grande ameaça dos imigrantes em 2015, durante a “crise migratória”. No entanto, de forma alguma o Pacto de Marrakesh obrigou os países europeus a renunciarem a sua política migratória nem a aceitarem uma “imigração em massa”.

Outra versão do boato é ainda mais barroca. Ela afirma que Macron, depois de supervisionar a “Grande Substituição”, renunciará para que a ONU assuma o controle da França. Desnecessário apontar o ridículo da operação. Por outro lado, vale a pena perguntar por que esse texto foi amplamente distribuído para meio milhão de “coletes amarelos” que mantiveram a França em suas garras por algumas semanas. Isso se explica porque os organizadores dessa ofensiva conhecem bem o perfil político dos manifestantes.

Eles sabem que, embora boa parte dos “coletes amarelos” seja de esquerda, ou até mesmo de extrema esquerda, a outra parte é de direita ou ultradireita. Por isso, faz sentido inundar os “coletes amarelos” com material anti-imigrantes, porque, especialmente nas classes pobres, existe uma grande aversão aos estrangeiros – ou, como dizem, “árabes-africanos que estupram mulheres brancas e tomam os empregos dos franceses”.

Note-se que o documento sobre a “Grande Substituição” já circula na Europa há meses. Ele foi firmado por chefes de Estado que não escondem seu ódio aos imigrantes, como Viktor Orbán, na Hungria. Mais recentemente, a Áustria juntou-se ao movimento em novembro, evocando sua preocupação com o “direito à imigração”. O tema é encontrado em todos os baluartes da ultradireita. Todos os setores europeus que reivindicam a “teoria conspiratória” denunciam o famoso Pacto de Marrakesh.

Na França, o Pacto de Marrakesh é frequentemente denunciado pela extrema direita. Mas, surpreendentemente, até o partido Republicanos, que participou de vários governos de direita, denuncia Macron como “traidor da França”, porque “ameaça nossa soberania e nossa identidade”. “Todo os povos têm o direito de escolher a quem dar boas-vindas”, dizem os líderes do partido.

Os “coletes amarelos” insistem que são apolíticos. No entanto, a opinião pública os coloca mais à esquerda e manipulados pelos partidos de esquerda ou ultraesquerda. O sucesso das campanhas no Facebook, porém, mostra claramente que há uma proporção alta de homens e mulheres da ala direita entre os manifestantes vestidos com coletes amarelos, sobretudo de extrema direita. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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