Os motivos de Adonis

Adônis G. B. veio ao mundo quando o socialismo começava a se deteriorar na Europa. Passou uma infância de privações num dos momentos mais críticos de Cuba e talvez tenha carregado com orgulho o lenço no pescoço, quando todos gritavam o lema "Seremos como o Che!"

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2011 | 00h00

Podemos adivinhar sua adolescência, inaugurando os métodos educativos próprios do ensino pela TV. E quando teve a oportunidade de ganhar algum dinheiro com a confusão provocada pela dualidade monetária, um belo dia, ao começar a se barbear, descobriu diante do espelho que era um homem sem expectativas.

Não se trata de tirar proveito político da decisão do jovem Adônis de viajar como clandestino no trem de pouso de um DC-8 da Ibéria, mas de encontrar as causas que o levaram morrer dessa maneira. O certo é que os meios oficiais da ilha não disseram uma palavra sobre sua morte.

Apesar da reserva institucional, a notícia circulou por todos os lados e a pergunta que se faz é esta: "A situação desse jovem em Cuba era tão insustentável?" Havia um motivo a mais, como sentir-se perseguido, ou ele atravessou o oceano para se encontrar com alguém? No momento, nada se sabe.

O certo é que ele não conseguiu levar a cabo seu projeto sem ter antes feito um plano, porque, se alguma coisa é bem protegida nesta ilha são as fronteiras aeroportuárias. É difícil não pensar no seu sofrimento dentro do pequeno espaço que dividiu com as rodas do avião. As dores de seus ossos fraturados pelo mecanismo implacável poucos segundos após a decolagem, o pânico da reclusão, a raiva ao compreender o fracasso de sua tentativa, o frio inesperado que acabou por matá-lo.

Tampouco conhecemos a gravidade de seus problemas e só podemos intuir que ele não dispunha de nenhuma solução para suas dificuldades. Adônis chegou à conclusão de que devia abandonar o país.

Contudo, não tinha um avô espanhol que lhe permitisse mudar de nacionalidade. Ninguém lhe enviaria uma carta-convite. Nenhuma embaixada lhe daria um visto, pois sua condição de imigrante seria flagrante. Também não era um grande desportista ou um músico talentoso para viajar e desertar. Não tinha contato com traficantes de pessoas que atravessam o Estreito da Flórida e não tinha a mínima ideia de que iria cometer uma loucura.

Não há termômetro que possa medir o desespero humano e cada pessoa tem seu próprio limite de resistência. Esse jovem cubano, cujo corpo apareceu pendurado numa posição estranha no aeroporto de Barajas, teve duas oportunidades de participar das eleições, sem jamais saber o que realmente pensavam os candidatos que iria eleger.

Ainda estava no primário durante o 5.º Congresso do Partido Comunista e precisou esperar 14 anos para que anunciassem novas mudanças. Provavelmente, não tinha um profissão de futuro nem recursos para percorrer o caminho tortuoso do trabalho autônomo. Uma casa própria era impossível. Adônis não conseguiu esperar. Se tivesse ficado, estaria vivo, pensando numa maneira melhor de escapar daqui. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA CUBANA E AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. EM 2008, RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO

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