Os novos papéis no Velho Mundo

Para a Europa, que vem perdendo sua posição privilegiada com os EUA, a consequência da ascensão da China é de longo alcance

Joseph S., NYT - Project Syndicate - O Estado de S.Paulo

17 Julho 2014 | 02h00

A ascensão da China suscitou muitas questões para o Ocidente, entre elas algumas especulações sobre se ela está fadada a usurpar o papel de liderança global de uma Europa alquebrada. Como expressou um colunista "não há muito que governos europeus possam fazer no leste asiático, exceto servir de gerentes de marketing de suas empresas domésticas". Sem influência diplomática nem peso militar para deixar uma marca na região, restaria à Europa atribuir as demonstrações de força aos Estados Unidos. Mas não precisa ser assim.

Para a Europa, as implicações da ascensão da China são de longo alcance, a começar pelo "pivô" estratégico dos EUA para a Ásia. Após mais de 70 anos como maior prioridade dos EUA, a Europa está começando a perder sua posição privilegiada aos olhos dos líderes americanos.

Além disso, as vendas europeias de produtos hi-tech que podem ser usados tanto para fins civis quanto militares que complicam o papel de segurança dos EUA na Ásia são propícias a criar atritos.

Entretanto, as advertências de que a parceria atlântica está erodindo são exageradas. Reveladoramente, o governo do presidente Barack Obama substituiu o termo "pivô" que representa um giro para se afastar de algo por "reequilíbrio". Esta mudança reflete um reconhecimento de que o crescente domínio econômico da China não nega a importância da União Europeia, que continua sendo a maior entidade da área do mundo e uma fonte importante de inovação, para não mencionar valores como a proteção de direitos humanos.

Ajustes. Isso não significa que a ascensão da Ásia não exigirá ajustes. Quando a Revolução Industrial começou, a participação da Ásia na economia global começou a declinar de mais de 50% para apenas 20% em 1900. Na segunda metade deste século, a Ásia deverá recuperar seu antigo domínio econômico - isto é, ser responsável por 50% da produção global - enquanto tira centenas de milhões de pessoas da pobreza.

Esta mudança de poder - talvez a mais significativa do século 21 - implica sérios riscos. Os historiadores com frequência advertem que o medo e a incerteza causados pelo surgimento de novas potências como a China podem desencadear conflitos graves, como o que a Europa experimentou um século atrás, quando a Alemanha superou a Grã-Bretanha em produção industrial.

Com a Ásia dividida por disputas territoriais e tensões históricas, manter um equilíbrio e a segurança estável não será fácil. Mas há alavancas prontas que podem ajudar.

Nos anos 90, quando o governo do então presidente americano, Bill Clinton, estava avaliando como responder ao poderio econômico crescente da China, alguns recomendaram uma política de contenção. Clinton rejeitou esse conselho: teria sido impossível forjar uma aliança anti-China, dado o desejo persistente dos vizinhos da China de manter boas relações com ela; mais importante, tal política teria garantido a inimizade futura da China.

Clinton optou então por uma política que poderia se chamar de "integrar e segurar". Enquanto a China era recebida na Organização Mundial do Comércio (OMC), os EUA renovavam seu tratado de segurança com o Japão.

Se a China perseguir uma "ascensão pacífica", seus vizinhos se concentrarão na construção de relações econômicas sólidas com ela. Se ela jogar pesado - o que para alguns está implícito em suas ações recentes na fronteira indiana e nos Mares da China Oriental e Meridional - seu vizinhos procurarão equilibrar seu poder com uma presença naval americana na retaguarda. Onde se encaixa a Europa neste quadro? Para começar, ela deve monitorar e limitar exportações sensíveis para evitar a criação de uma situação de segurança mais perigosa para os EUA. Mesmo em termos comerciais, a Europa tem interesse na estabilidade regional e em rotas marítimas seguras.

Além disso, a Europa pode contribuir para o desenvolvimento de normas que balizem o ambiente de segurança. Por exemplo, ela pode jogar um papel importante no reforço de uma interpretação universal da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, em vez da versão idiossincrática da China - em especial porque os EUA nem sequer ratificaram o tratado.

Ao contrário das alegações de alguns analistas, a China não é um Estado revisionista, como a Alemanha nazista ou a União Soviética, ávido para derrubar a ordem internacional estabelecida. Aliás, não é do interesse da China destruir instituições internacionais - como a ONU, a OMC e o Fundo Monetário Internacional - que ajudaram a facilitar sua ascensão. Dado os papéis de liderança da Europa nestas instituições, ela pode ajudar a China a conquistar legitimidade que busca em troca de um comportamento responsável.

Embora a China não esteja tentando subverter a ordem global, ela está passando por uma transformação profunda - e desestabilizadora. Com a ascensão de questões transnacionais como mudanças climáticas, terrorismo, pandemias e crimes virtuais, trazidas pelo rápido progresso tecnológico e mudanças sociais, o poder está se dispersando, não por Estados, mas por um amplo leque de entidades não governamentais. Enfrentar esses desafios requererá uma ampla cooperação internacional - com a China, os EUA e a Europa jogando papéis importantes.

Censura. Finalmente, há uma questão de valores. A Europa, juntamente com os EUA, já resistiu a cobranças chinesas (e russas) de uma maior censura da internet. E países europeus como Noruega e Alemanha deliberadamente sofreram prejuízos econômicos em nome de direitos humanos.

Apesar de ser impossível prever como a política chinesa vai evoluir, as experiências de outros países sugerem que mudanças políticas ocorrem com frequência quando a renda per capital atinge aproximadamente US$ 10 mil. Se tais mudanças ocorrerem, a Europa terá uma abertura para promover seus valores centrais ainda com maior eficácia.

Resta ver se os interesses econômicos da China numa ordem mundial imparcial com base no estado de direito vão levar a uma maior proteção dos direitos individuais. Somente a China decidirá isso. Mas a Europa pode ter uma boa influência neste sentido.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*JOSEPH S. FOI SECRETÁRIO ADJUNTO DE DEFESA DOS EUA. ATUALMENTE, PRESIDE O US NATIONAL INTELLIGENCE COUNCIL E É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE HARVARD. ELE É O AUTOR, MAIS RECENTEMENTE, DE PRESIDENTIAL LEADERSHIP AND THE CREATION OF THE AMERICAN ERA.

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