KCNA/Handout via REUTERS/File Photo
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Os objetivos de Kim

Líder supremo da Coreia do Norte é um indivíduo louco e imprevisível ou um estrategista inteligente? 

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2017 | 05h00

Muitas vezes me perguntei que figura mundial mais gostaria de entrevistar. A resposta é Kim Jong-un. A impressão é de que o norte-coreano é um sujeito louco e imprevisível, mas acho que ele pode ser um estrategista, inteligente e racional. Como não conseguirei fazer, decidi imaginar como seria a entrevista.

Por que o senhor insiste em desenvolver armas nucleares mesmo que provoquem sanções severas? 

Meu país se depara com um desafio: sua sobrevivência. O regime está mais ameaçado do que nunca. Meus antepassados não enfrentaram tantos problemas. Meu avô, o Grande Líder, governou com o apoio de outra superpotência, a União Soviética, e também da nossa gigantesca vizinha, a China. O Querido Líder, meu pai, também contou com a ajuda de Pequim. Hoje, a União Soviética ficou no passado e a China está mais integrada no sistema ocidental. E a única superpotência, os EUA, deixa claro que pretende uma mudança de regime. E, contudo, temos sobrevivido com nossa ideologia e sistema intactos porque desenvolvemos uma proteção das armas nucleares. 

Mas a China ainda supre seu país com alimentos e combustível. Não a considera uma aliada?

A China é pragmática. Ela nos apoia tendo em vista seus interesses. Não deseja milhões de refugiados – ou uma Coreia unificada – em sua fronteira, o que seria uma versão mais ampla do que é hoje a Coreia do Sul, com tropas americanas e uma aliança firmada por tratado. Acho que a China não nos considera uma aliada. Ela votou a favor das sanções na ONU. O presidente Xi Jinping tem estreitas relações com a Coreia do Sul. Ele nunca se encontrou comigo, como foi o caso de líderes chineses anteriores, ao passo que manteve 10 reuniões com os dois últimos presidentes sul-coreanos. Há dois anos, celebrando o 70.º aniversário do fim da 2ª Guerra, em Pequim, ele estava com os presidentes da Rússia e da Coreia do Sul. 

Por isso o senhor se empenha em descontentar a China e Xi especificamente?

Não vamos nos intimidar. Ouvimos falar que autoridades do alto escalão da China e EUA discutiram a possibilidade de fomentar um golpe na Coreia do Norte para colocar no poder um líder mais maleável. Portanto, adotei medidas para assegurar que isto não ocorra. A pessoa do nosso governo mais próxima dos chineses que poderia ter organizado essa tentativa de golpe era meu tio. Outro que seria meu substituto natural era meu meio-irmão. Ambos foram liquidados, como também mais de 100 oficiais de alto nível desleais.

O senhor pretende negociar? Concordaria com a desnuclearização em troca da suspensão das sanções?

Sim e não. Estamos dispostos a negociar. Mas jamais renunciaremos ao nosso arsenal. Não somos estúpidos. É tudo que nos mantém vivos. Veja o caso de Saddam Hussein – e não esquecemos nunca que a Coreia do Norte foi incluída no “eixo do mal” um ano antes de o Iraque ser invadido. Veja o que aconteceu com Muamar Kadafi depois de ele abandonar seu programa nuclear. E o que vem ocorrendo com o Irã? Depois de Washington ter firmado um acordo e ficar confirmado que os iranianos o cumpriram, Trump diz que vai romper o pacto. Acha que somos estúpidos para acreditar nas promessas americanas? Somos uma potência nuclear. Isto não é negociável. Estamos dispostos a discutir limites, proibição de testes, mas não precisamos dar algo em troca. Precisamos de segurança, de reconhecimento diplomático e garantias de não agressão por parte da China, Japão e EUA.

A Coreia do Norte terá a capacidade de lançar mísseis contra os EUA?

Sim. Isto atende o meu objetivo, que é manter vocês distraídos. Mas por que eu atacaria os EUA, provocando um contra-ataque retaliatório que acabaria com meu regime? Pense nisto: minha estratégia é assegurar minha sobrevivência e a do regime. Por que eu colocaria isto em risco? Acredito em assassinato, não em suicídio. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É COLUNISTA

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