AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Os objetivos de Trump

Razões políticas de ordem interna, combinadas com a fluidez incontrolável dos acontecimentos no terreno, determinarão os rumos do conflito

Lourival Sant'anna, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 03h00

Até recentemente, Donald Trump planejava aliar-se a Vladimir Putin e Bashar Assad para enfrentar, juntos, o inimigo comum – o Estado Islâmico. Entretanto, uma nova realidade política se impôs, com o impacto negativo das múltiplas evidências de relações de membros de sua equipe com o governo russo, e de envolvimento do Kremlin na quebra do sigilo dos e-mails da campanha da candidata democrata Hillary Clinton, que o beneficiou na disputa presidencial. 

O uso de armas químicas pelo regime sírio no massacre em Idlib ofereceu a oportunidade para Trump mudar de posição. O presidente americano disse que o ataque mudou sua percepção sobre o regime Assad e arrematou: “A Síria cruzou muitas linhas para mim”. A frase tem enorme significado. Em 2012, seu antecessor, Barack Obama, avisou a Síria de que o uso de armas químicas “cruzaria uma linha vermelha” para os EUA. 

Em agosto do ano seguinte, já com a guerra civil contaminada pelos avanços de grupos radicais islâmicos, Assad entendeu que era hora de medir a temperatura da água. O bombardeio de Ghouta, na periferia de Damasco, com foguetes transportando gás sarin, deixou cerca de mil mortos. Foram incontáveis ataques com armas químicas desde então.

O cálculo de Assad mostrou-se correto: Obama, naquele momento, já estava paralisado pelo temor de que a queda do governo sírio fortalecesse grupos islâmicos, como ocorrera no Egito e na Líbia. O descumprimento da ameaça desmoralizou os EUA no Oriente Médio. O vácuo foi ocupado pela Rússia, cujo apoio incondicional a Assad a levou a bombardear os rebeldes seculares e religiosos. 

Aos repórteres que lhe perguntaram se Assad devia cair, Trump respondeu: “O que aconteceu na Síria é uma desgraça para a humanidade, e ele está lá, e acho que ele está mandando, então algo deveria acontecer”. Na mesma linha, o secretário de Estado, Rex Tillerson, declarou que “parece que não há nenhum papel para ele em governar o povo sírio”, e prometeu “uma resposta séria”.

A resposta veio no dia seguinte, na forma de 59 mísseis Tomahawk, disparados de dois destróieres do Mediterrâneo Oriental, que aniquilaram a base síria de Shayrat, da qual haviam partido os aviões para o ataque com gás sarin. O escopo da operação indica um objetivo de apenas retaliar contra uma ação considerada inaceitável, destruindo os meios nela empregados. Nesse sentido, ainda não é uma ruptura com a política de Obama e do próprio Trump de não se engajar em “mudança de regime”. 

Mas no Oriente Médio é difícil escapar do encadeamento natural dos fatos, e nesse caso ele envolve a Rússia, que tem ali o objetivo claro de manter sua influência na região – sem a qual é impossível ser relevante no mundo – por meio da aliança com Assad e sua base naval no Porto de Tartus (a única de que dispõe no Oriente Médio).

Tillerson advertiu que “é muito importante que o governo russo considere cuidadosamente seu continuado apoio ao regime de Assad”. Putin respondeu cancelando o acordo de 2015 que criou regras de engajamento das aviações russa e americana para evitar um confronto no espaço aéreo sírio. Parece a senha para uma escalada, mas uma guerra com os EUA não interessa à Rússia.

De maneira que a evolução dessa crise depende, em maior medida, dos objetivos políticos de Trump. A mudança de política sobre a Síria e a Rússia coincide com o remodelamento (de novo) do Conselho de Segurança Nacional. O principal marqueteiro de Trump, Stephen Bannon, perdeu seu assento, e o chefe do Conselho, general Herbert Raymond McMaster, ganhou mais poder. 

Seu antecessor, o general Michael Flynn, era favorável à aproximação com a Rússia e foi demitido depois de ficar provado que tinha mentido sobre seus contatos com o embaixador russo em Washington. McMaster nutre a visão clássica do establishment de segurança de que a Rússia é o principal rival dos EUA.

Trump tem o incentivo político extra de distanciar-se de Putin, para tentar recuperar a credibilidade perdida em razão das suspeitas sobre suas relações com a Rússia. Como sempre, razões políticas de ordem interna, combinadas com a fluidez incontrolável dos acontecimentos no terreno, determinarão os rumos desse conflito.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.