Os obstáculos de Brennan na CIA

Novo diretor da agência terá de decidir o que fazer com relatório do Senado sobre tortura em interrogatórios

É JORNALISTA, SCOTT, SHANE, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, SCOTT, SHANE, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2013 | 02h07

O primeiro desafio de John Brennan na CIA pode não estar no futuro da agência, mas no seu passado. Brennan assumirá a agência onde trabalhou por 25 anos no momento em que ela enfrenta acusações contra seu extinto programa de interrogatórios. O estudo de 6 mil páginas do Senado inclui acusações de que, durante anos, agentes da CIA iludiram a Casa Branca, o Departamento de Justiça e o Congresso sobre técnicas de interrogatório usadas em prisioneiros membros da Al-Qaeda.

O relatório conclui que o programa foi mal concebido, frouxamente administrado e muito menos útil na obtenção de informações do que seus defensores alegaram. O texto colocará Brennan num fogo cruzado entre democratas, que criticam o que eles chamam de experimento desastroso de tortura, e republicanos, que dizem que o relatório é tendencioso e criticam o presidente Barack Obama por proibir interrogatórios coercitivos. Eles podem colocar Brennan numa posição difícil dentro da CIA.

Se endossar o relatório, ele estará criticando os muitos agentes da CIA que trabalharam no programa e desafiando a posição de ex-diretores, especialmente George Tenet, que supervisionou os interrogatórios brutais, e Michael Hayden, que foi um fervoroso defensor deles. Segundo alguns senadores , o relatório documenta com detalhes como agentes da CIA forneceram a autoridades de alto escalão do governo Bush, a membros do Congresso, aos americanos e até a seus próprios colegas um relato distorcido de sua natureza e eficácia.

Após um início bipartidário em 2009, os republicanos se recusaram a participar da redação do relatório, o que tornou o esforço de quatro anos basicamente um trabalho dos democratas. A CIA estourou o prazo de 15 de fevereiro para completar uma avaliação do relatório, que tem 35 mil notas de rodapé referentes a 6 milhões de documentos. Agora, parece provável que a resposta será postergada até a chegada de Brennan.

Como Obama disse que preferia olhar para a frente e não para trás, o relatório é o exame mais completo de como os EUA usaram métodos que há muito tinham sido condenados como abuso e tortura. Brennan terá de decidir se apoia a divulgação de uma versão editada do texto. Vários senadores democratas e pelo menos um republicano, John McCain, que foi torturado no Vietnã, disseram que uma versão deve ser divulgada e Brennan declarou que "consideraria" o pedido.

Ele terá de decidir se convocará o que a CIA chama de conselho de responsabilização para recomendar punições a agentes acusados de deturpar o programa de interrogatório. Se ele tentar manter a paz, rejeitando a disputa como uma distração dos desafios atuais da agência, enfrentará resistência da maioria democrata e de McCain.

Como o debate sobre tortura no filme A Hora Mais Escura mostrou, a questão dos interrogatórios ainda lança uma longa sombra sobre a CIA quase uma década após a última simulação de afogamento. Brennan disse em sua audiência que se o resumo executivo de 350 páginas do relatório estiver correto, ele próprio havia sido mal informado sobre o programa. Isso seria um desdobramento extraordinário, pois ele foi vice do terceiro cargo mais importante da agência, em 2002 e 2003, quando o programa estava no auge. Brennan disse que não teve papel na condução do programa e expressou privadamente sua desaprovação a colegas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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