Rafael Marchante/Reuters
Rafael Marchante/Reuters
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Os olhos nos olhos da morte

Sites do EI acusam o Ocidente de usar as igrejas para ‘abençoar a sodomia’

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2016 | 05h00

A França tem os olhos nos olhos da morte. Viu a garganta cortada do velho padre que, aos 85 anos, continuava a servir a Deus e aos homens. Mataram-no. Deixaram o corpo na igreja devastada. 

Os políticos falam. Os pensadores pensam. “É a guerra”, concluem todos. Mas qual guerra? Isso, não dizem. É uma guerra sem nome, sem padrão nem modelo. Relacioná-la a quê? Certamente, não àquelas velhas, horríveis e empoeiradas guerras que a Europa, em 2.000 anos, aprendeu a administrar, bem ou mal, ao preço de algumas dezenas de milhões de mortos.

Apenas um político ousou falar claramente: “É uma guerra religiosa”, disse o primeiro-ministro francês, Manuel Valls. Estranhamente, ele usou a mesma linguagem dos chefes messiânicos do Estado Islâmico. O que marca a identidade do EI, desde sua origem, é isso: promover uma guerra de civilizações, ou, ao menos, uma guerra religiosa. 

Todos os discursos do EI repetem: os ataques aéreos da coalizão na Síria e no Iraque são uma “cruzada” do Ocidente, enquanto as ações do EI são simplesmente uma “contracruzada”. O califa do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, detalha: “Marcharemos sobre Roma para quebrar as cruzes”. 

Sites do EI relatam capítulos dessa cruzada e contracruzada. Um deles pôs na capa uma foto da Basílica de São Pedro, em Roma, com o obelisco egípcio na frente dela. “Usam as igrejas para abençoar a sodomia”, diz outro site. “Designam padres homossexuais, e o papa se recusa a condená-los.” É lembrada, então, a fala do papa Francisco: “Quem sou eu para julgá-los?”. 

A França, como a Europa em geral, repudia falar em guerra religiosa. Por quê? Talvez porque as guerras religiosas (católicos contra protestantes, principalmente) que cobriram de sangue a Renascença continuem sendo uma lembrança medonha e vergonhosa. Talvez também porque os europeus saibam, por experiência própria, que as guerras mais impiedosas foram frequentemente as religiosas. 

Assim, os pensadores franceses ficam roucos de demonstrar que não se trata de uma guerra religiosa. De fato, explicam, se a França é um país oficialmente laico (desde 1905), como poderia estar envolvida numa guerra religiosa? O argumento é falacioso. De resto, em seus comentários após a profanação da igreja, os jornais franceses confessaram simploriamente a verdade. “Eles atacam igrejas. Ora, a igrejinha de província, com seu presbitério, seu jardinzinho, a flecha de seu campanário, não é a própria marca da identidade francesa?”. Exato. 

A França é uma das nações que têm as maiores proporções de muçulmanos. A propaganda do EI detalha seu mecanismo diabólico: o furor e a ignomínia terrorista terão como consequências um endurecimento por parte das autoridades francesas, o abandono do estado de direito, repressões terríveis, ascensão da direita ou da Frente Nacional e multiplicação de “islamofóbicos”. Nesse clima doentio, os muçulmanos residentes na França seriam obrigados a deixar o país. 

É esse é o objetivo dos ideólogos e dos fanáticos do EI: fragmentar a unidade do Ocidente, dividir o mundo em dois e forçar os muçulmanos a deixar o país das Cruzadas e dos infiéis, levando-os a se abrigar no seio da imensa comunidade dos crentes. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.