Os outros cidadãos de Israel

Se o país for o ''Estado judaico'', como defende Bibi, que direitos terão os árabes-israelenses?

Ahmad Tibi, The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Não há limites para o que o governo americano aceitará do premiê israelense, Binyamin Bibi Netanyahu, e seu ministro das Relações Exteriores, o linha-dura Avigdor Lieberman? O gabinete israelense votou em favor do juramento de lealdade proposto por Lieberman para os imigrantes não judeus, que seriam assim obrigados a declarar solenemente seu apoio ao "Estado judaico e democrático" de Israel. É como se os imigrantes mexicanos nos EUA tivessem de fazer um juramento de lealdade ao país caracterizados como Estado branco e protestante, enquanto os imigrantes vindos da Europa seriam isentos de tal procedimento.

Em resposta aos protestos internacionais, apesar do silêncio americano, Bibi solicitou uma emenda que imporia o juramento a todos os imigrantes, tanto judeus quanto não judeus.

Mas o erro deste juramento vai muito além da simples intenção inicial de aplicá-lo aos não judeus. Jurar lealdade a um Estado israelense ao mesmo tempo judaico e democrático é uma inconsistência lógica e uma tentativa de relegar os cidadãos palestinos de Israel a um status inferior. Os cidadãos árabes de Israel representam 20% da população do país. Num momento em que há mais de 35 leis que discriminam os palestinos, enquanto novas medidas do tipo aguardam aprovação no Parlamento, já passou da hora de os americanos perguntarem aos seus líderes o que, exatamente, o dinheiro dos seus impostos está financiando em Israel.

A arrogância das exigências iniciais do premiê contra um número relativamente pequeno de imigrantes não judeus também se estende às negociações com a Autoridade Palestina.

Recentemente, Bibi declarou: "Se os líderes palestinos disserem inequivocamente ao seu povo que reconhecem Israel como Estado-nação do povo judaico, estarei preparado para negociar com meu governo uma suspensão adicional na construção de assentamentos por um prazo limitado."

Isto é loucura. Bibi está sugerindo que os palestinos reconheçam Israel como Estado judaico porque incorporada a esse reconhecimento está uma concessão palestina em relação ao seu direito de retorno.

Tudo isto em troca de quê? Dois meses de suspensão na construção de assentamentos na Cisjordânia? As propostas de Bibi são as palavras de um homem sem interesse em avançar no rumo da paz. E suas concessões a Lieberman só encorajam um recém-chegado ao país a pensar que, por ser judeu, ele pode se sobrepor aos direitos de palestinos que estão aqui há séculos.Se Israel for o Estado judaico, que direito teremos nós, palestinos, de estarmos aqui? Nenhum. E portanto não deve surpreender a notícia de que Lieberman está ao mesmo tempo tentando promover a aprovação de um plano para transferir os cidadãos palestinos de Israel para um restolho de Estado na Cisjordânia.

Em vez de apoiar a ideia supremacista de um Estado judaico, mediadores americanos como George Mitchell e Dennis Ross deveriam pressionar Israel a proporcionar igualdade de direitos e tratamento justo à minoria palestina que vive dentro do país. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É VICE-PRESIDENTE DO PARLAMENTO ISRAEL

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