Evan Vucci/AP
Evan Vucci/AP

Os países que são focos de tensão com governo americano

Arábia Saudita, Polônia, Índia e Brasil se tornaram algumas das pedras no sapato do governo de Joe Biden

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2021 | 05h00

Duas reuniões de cúpula marcarão o primeiro ano de mandato do presidente Joe Biden na arena global: a do clima, em abril, e a da democracia, em dezembro. Esses são os dois vetores da projeção global americana sob Biden, que pautarão as relações dos EUA com cada país do mundo.

Ao caracterizar a rivalidade entre EUA e China como uma disputa entre democracia e autocracia, Biden procura induzir tradicionais aliados americanos – União Europeia, Japão e Coreia do Sul – a escolher entre um e outro. Outros três importantes aliados – Reino Unido, Canadá e Austrália – já haviam se distanciado da China. Em todos esses países, um grande parceiro de Biden nessa estratégia é a opinião pública, que, por razões diversas, nutre antipatias pelo regime chinês.

Algo parecido se aplica à mudança climática. O novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, revisto e aprovado por 195 países, afastou quaisquer dúvidas que ainda pudessem pairar sobre a ação humana como causa do aquecimento global e de adventos extremos a ele relacionados.

A mudança climática afeta diretamente o cidadão comum, que, quando suficientemente instruído para compreender o que está em jogo para si mesmo e as gerações futuras, tende a aderir a essa causa, mesmo com as renúncias em seu estilo de vida que ela possa acarretar. E há muitos cidadãos assim naqueles países. De modo que a aproximação com os EUA de Biden ganha não só um sentido geopolítico, mas também potencialmente a adesão dos eleitores.

De imediato, essa dupla estratégia fincada na democracia e no meio ambiente tende a criar tensões com alguns aliados, como Arábia Saudita, Polônia, Índia e Brasil. 

A Arábia Saudita é uma monarquia absolutista, na qual o poder ilimitado do soberano é simbolizado pelo esquartejamento do jornalista Jamal Khashoggi. Além disso, as ligações entre o regime saudita e grupos terroristas como a Al-Qaeda virão à tona mais uma vez no 20.º aniversário dos atentados do 11 de Setembro.

Com uma população de apenas 34 milhões, a Arábia Saudita ocupa o 10.º lugar em emissões de dióxido de carbono – uma posição à frente do Brasil. E sua riqueza provém da exportação de petróleo. Logo no início do governo, Biden suspendeu a venda de armas ao reino e se lançou à renegociação do acordo nuclear com o Irã, seu principal rival.

O governo ultraconservador da Polônia reivindicou mais verbas da UE para limpar sua matriz energética fortemente dependente do carvão, mas não apresentou um plano convincente. O país está na mira da UE por minar a independência do próprio Judiciário. Uma emenda à Constituição, aprovada esta semana, com o objetivo de tirar do ar o canal TVN24, crítico ao governo, e pertencente ao Discovery Channel, lançou um foco de tensão com os EUA.

Como adversária da China, a Índia é um aliado estratégico dos EUA. O nacional-populismo do primeiro-ministro Narendra Modi tem solapado a democracia multirreligiosa indiana. A Índia é o terceiro maior emissor de gás carbônico, depois da China e dos EUA. Mas, na Cúpula do Clima de abril, Modi e Biden lançaram a Agenda Índia-EUA da Energia Limpa 2030, que se dedicará a mobilizar investimentos, demonstrar tecnologias limpas e promover colaborações ambientais. Com essa iniciativa, com sua importância estratégica e com a manutenção de uma aparência de democracia, Modi garante, por ora, boas relações com Biden.

Até recentemente, o principal irritante entre Brasil e EUA era a preservação da Amazônia. Agora, a preservação da democracia passa a competir pelas atenções da Casa Branca, que afinal só é ocupada hoje por Biden porque não funcionou nos EUA a tática de Donald Trump, encampada por Jair Bolsonaro, de não aceitar a eventual derrota nas urnas. 

 * É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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