Os perigos de uma campanha suja

Onde você estava quando Obama foi morto? Essa é a pergunta que rezamos para não ter de fazer, e até hesitei em escrever, como se a simples menção disso pudesse ser um convite para a calamidade. Contudo, o medo tem tomado conta de nós quando vemos Barack Obama no meio da multidão. Durante semanas, assisti à cobertura das eleições nos 24 ou 27 canais noticiosos da Grã-Bretanha, examinando exaustivamente todas as reportagens sobre a campanha, mas nem uma vez ouvi alguma coisa a respeito ser mencionada. Quase diariamente, em conversa com as pessoas, o assunto sempre vem à tona, especialmente quando me encontro com jornalistas.A autocensura da mídia é correta? Eu não devia estar escrevendo sobre isso? Tem muita gente influenciável e instável por aí. Os especialistas podem discutir o impacto psicológico da cobertura da mídia de assuntos como este, mas é claro que há algum influência. No início do ano, uma blogueira observou que o tema "assassinar Obama" tinha aparecido numa lista dos cem principais itens de busca no Google. Ela insinuou que reportagens de jornais sobre o perigo é que provocaram o aumento das buscas - e o seu blog podia fazer o mesmo. Como também este artigo. No entanto, ignorar a questão é omitir algo importante. E é só tendo esse pavor como um pano de fundo sombrio é que se consegue avaliar a total irresponsabilidade dessa mudança de foco da campanha de John McCain e Sarah Palin, que passaram a atacar o caráter, a biografia e o patriotismo de Obama - ataques que, em outro contexto, não hesitaríamos em descrever como "linchamento moral". A acusação feita por Sarah de que Obama esteve "associado a terroristas", as mensagens telefônicas gravadas que o associam com o "terrorista doméstico" Bill Ayers, a insinuação de que ele é um estrangeiro antiamericano, rimando Obama com Osama, o fato de não se reprimir imediatamente quando algum idiota no comício de Sarah grita "terrorista" ou "matem-no". PROTEÇÃOOs partidários de Sarah podem dizer que isso são EUA, não a Europa. Lutamos ferozmente, e lutamos para ganhar. Arrancar os olhos de alguém enquanto você rola na lama é ótimo nesta terra de homens de verdade. No entanto, republicanos mais responsáveis não concordam com isso. E, segundo eles, se você colocar de fato "o país em primeiro lugar" - que é o lema da campanha de McCain -, não deve seguir por esse caminho.Não foi por acaso que Obama recebeu proteção da polícia secreta durante as primárias. Ao verem o apoio eloqüente e ponderado de Colin Powell a Obama, muitos devem se lembrar que a razão pela qual ele não se candidatou à presidência foi o receio de sua mulher de que ele fosse assassinado. Nenhum analista sério vai discordar que a ameaça a Obama, por mais eficaz que seja a proteção da polícia, seja maior do que seria se ele fosse um candidato branco.Claro que loucos, xenófobos e racistas estão por toda a parte. A questão é que ninguém jamais poderá dizer que a campanha republicana não os encorajou. Acho importante registrar que ouvi vários republicanos afirmarem como seria ótimo para os EUA terem um presidente negro. CRESCIMENTOA crítica da maldosa mudança de foco da campanha republicana poderia perder um pouco de força se a campanha de Obama também tivesse feito ataques similares. Os democratas também fizeram uma campanha negativa e o excelente site factcheck.org declarou que o próprio Obama, por vezes, distorceu as posições políticas de McCain. Ele nunca recorreu, porém, a ataques pessoais tão baixos. No último debate, Obama se absteve de questionar as qualificações de Sarah para ser vice-presidente. Sua mensagem silenciosa foi esta: cabe ao povo americano julgar. Assim, a campanha McCain-Palin vem brincando com fogo. As apostas nessa eleição aumentam a cada dia. É como um jogo de pôquer com pilhas de fichas se acumulando sobre a mesa. Tanto as perdas como os ganhos são enormes. E o melhor de tudo não é só o enorme avanço simbólico de eleger o primeiro presidente negro dos EUA, mas também a chegada ao mais importante cargo do mundo de uma pessoa que tem as qualidades necessárias para fazer um excelente trabalho.Nem sempre pensei dessa maneira. Ano passado, Obama ainda me parecia inexperiente. Contudo, a cada desafio, ele ganhou estatura. Para começar, mostrou uma extraordinária força e resistência. Por causa da longa e interminável disputa com Hillary Clinton durante as primárias, ele está em campanha há quase dois anos ininterruptos. Durante todos os altos e baixos da campanha e a crise financeira das últimas semanas, ele tem se mostrado calmo, controlado e firme como uma rocha. São qualidades que apreciamos num presidente. Nos debates, Obama foi sério, bem informado e maduro, fazendo com que McCain parecesse um jovem temperamental. O democrata elogiou os ataques dos antigos pilotos de combate com um sorriso irônico, o que visivelmente deixou McCain louco.HABILIDADEObama tem um desprendimento enigmático, que é um trunfo para qualquer presidente. Pessoalmente, é um homem equilibrado e enraizado. Você sente que é uma pessoa que sabe quem é. Não porque sempre soube, como é o caso do herdeiro da "longa linhagem dos McCains", mas porque conseguiu chegar lá pelo caminho mais difícil, como está registrado em seu livro autobiográfico Dreams from my Father. Obama também deixou de lado a verborragia observada no início da campanha. Em política, ele demonstrou um claro domínio intelectual dos assuntos, uma capacidade para absorver e sintetizar conselhos de especialistas e um foco consistente em algumas prioridades estratégicas, como a situação econômica da classe média, saúde, educação e energia. Após o último debate, alguns especialistas da CNN reclamaram que ele tinha sido "professoral" demais. O que eles têm contra professores? Depois vieram as pesquisas e se verificou que eleitores indecisos gostaram do tom "professoral". Após oito anos convivendo com "o tipo de cara com quem você gostaria de beber uma cerveja" (Bush), talvez a presença de alguém que mostre uma nítida compreensão de assuntos tão complexos não seja tão ruim.Sem cantar vitória antes do tempo, Obama já vem preparando suas escolhas políticas para compor o governo - determinado a iniciar seu primeiro mandato de modo melhor do que Bill Clinton. A cada semana, meu respeito por ele cresce mais. Claro que nunca se sabe realmente como serão as coisas até que elas aconteçam. Será ele corajoso o bastante? Conseguirá fazer com que as engrenagens de Washington, incluindo os membros de seu próprio partido, sejam eficazes? Tudo o que nos foi mostrado até agora, porém, sugere que ele tem as qualidades necessárias para ser um bom presidente, talvez até um grande presidente. Essas são algumas das razões pelas quais nenhuma eleição americana, desde 1932, foi cercada de um medo tão profundo e de tão grandes esperanças. *Timothy Garton Ash é professor de estudos europeus da Universidade de Oxford e bolsista sênior da Hoover Institution, da Universidade de Stanford

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