Os perigos do poder na Argentina

Quem detém o poder sente-se psicologicamente invisível e, assim, liberado do olhar dos outros, faz o que lhe dá na telha

Alejandro Katz - La Nación, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2013 | 02h04

O poder, que se acreditava vestido com a mais sofisticada e convincente retórica, estava nu. Faz tempo que essa nudez começou a se tornar patética: argumentos contraditórios, aliados inexplicáveis, decisões indefensáveis. Cada vez mais vozes o assinalavam, com frequência e intensidade crescentes. Embora o governo continue se exibindo como se o seu relato fosse uma roupagem magnífica, suas ações estão em questão.

Polifônicas, desiguais tanto pelos interesses quanto pelos valores que manifestam, essas críticas são prova da crescente distância entre os discursos e os atos oficiais, de um lado, e de outro, a ideia que diversos atores da sociedade têm sobre os modos como desejariam viver juntos. Não se trata, evidentemente, de que o governo defenda os interesses de uma maioria contra a vontade predatória de uma multidão de minorias inescrupulosas.

As críticas, ao contrário, chegam das mais variadas tradições políticas, das mais diversas esferas ideológicas, de posições contraditórias com respeito à distribuição da renda nacional, e expressam setores heterogêneos e radicalmente diferentes entre si. A maioria delas merece atenção: enuncia pontos de vista racionais e legítimos, e exige ser objeto de exame e debate.

Habitualmente, as objeções à ação do governo questionam decisões particulares, tomadas intempestivamente. Mas se elas remetem fundamentalmente a aspectos concretos é porque não é possível realizar uma crítica geral da política oficial dado que esta coisa não existe: esse governo não produz política, produz fatos.

O que caracteriza o conjunto das ações do governo - e subjaz ao conjunto das críticas - não é nem sua ideologia, nem sua política, nem, aliás, seu "projeto" inconsistente: é sua conduta. Uma conduta cada vez mais fora de controle. Não somente fora do controle republicano, mas fora do autocontrole que se espera dos que concentram o poder do Estado.

Como mostrou o sociólogo Norbert Elias, o Estado é resultado de um longo processo civilizatório que concentrou em si o monopólio da violência como o único modo de reduzir a incerteza com relação ao futuro. Concentrar o monopólio da violência é concentrar o poder. Com isso, o processo da civilização produziu os próprios monstros, dado que o poder inevitavelmente corrompe. Não no sentido de propiciar a obtenção de um benefício econômico indevido, mas no mais profundo de depravar, prejudicar ou apodrecer.

Loucura. A relação entre poder e loucura, indagada pela filosofia e explorada pela literatura, foi comprovada pela psicologia mediante numerosos e sistemáticos estudos experimentais. Adam Galinsky explica de que modo o poder corrompe os processos mentais dos que o detêm, o que provoca dificuldades para assumir o ponto de vista dos outros: o poderoso deixa de compreender como os demais veem as coisas, o que pensam e como sentem. "Os poderosos" - escreve Galinsky - "são mais propensos a enganar e quebrar as regras, até mesmo as que eles mesmos estabeleceram. Quem detém o poder sente-se psicologicamente invisível. Assim, liberado do olhar dos outros, faz o que lhe dá na telha. Por isso, os poderosos se sentem com direito de fazer tramoias e tomar o que querem. Esse sentimento de 'ter direito' os torna hipócritas: ao mesmo tempo em que agem imoralmente, sentem que podem exigir dos demais um padrão estrito de moralidade e autocontrole."

Outros pesquisadores provaram que a acumulação de poder vem acompanhada de uma demanda crescente de atenção sobre si mesmos e de condutas cada vez mais rígidas, que os poderosos se preocupam principalmente com seus desejos e seu bem-estar e eles perdem a sensibilidade com respeito às implicações sociais de sua conduta. Concentrados na ação orientada para o prosseguimento de grandes metas, os poderosos, indiferentes ao ponto de vista dos demais, mergulham na busca de seus objetivos sem reconhecer nenhuma restrição.

Estudou-se também a tendência do poder à objetivação dos demais, isto é, a ver as pessoas somente em termos das qualidades que servem aos fins e interesses pessoais, e a utilizá-las como ferramentas para alcançar esses fins. Incapazes de levar em conta o ponto de vista dos outros, concentrados na realização de seus objetivos, os poderosos também têm a tendência de criar estereótipos. O conjunto - ignorância da perspectiva alheia, propensão a considerar os outros como ferramentas para a realização de seus fins, e a criação de estereótipos - é uma caixa de ferramentas cognitiva que o poderoso utiliza para manter o comando.

Assim como o processo da civilização transferiu para o Estado o monopólio da violência, ele criou instituições cujo fim é, quando menos, duplo. Por um lado, elas ensinam os indivíduos a controlar sua conduta. As instituições simbólicas e culturais, tais como os "modos à mesa" ou o "comportamento no dormitório" aspiram, sobretudo, a regular as emoções individuais, a estabelecer controles emocionais sobre a conduta das pessoas, para conseguir que cada qual adapte seu comportamento às necessidades do conjunto. Mas a civilização também construiu instituições destinadas especificamente a controlar o poder, e, particularmente, o poder do Estado. Como ceder ao Estado o uso da violência significa também lhe outorgar uma quota desmesurada de poder, a necessidade de limitá-lo tornou-se imperiosa.

Leviatã para Hobbes, ogro filantrópico segundo Octavio Paz, esse Estado exibiu seus traços mais brutais quando aprendeu que apelar para a paixão era o modo mais eficaz de transpor os limites que a razão pretendia estabelecer. Nossa modernidade dá testemunhos suficientes do resultado que a excitação das paixões pode provocar sobre a sociedade, especialmente quando um líder fora do controle das instituições perde também o controle da própria conduta.

É verdade que as grandes catástrofes só podem ser causadas por grandes líderes em situações históricas e sociais excepcionais. Na mediocridade de um presente no qual se enunciam batalhas épicas, mas só se exibem sapatos de salto alto, a falta de limites do poder provoca pequenas misérias cotidianas. Mas essas misérias cotidianas são destrutivas do futuro comum: a relação inversa entre o poder e a capacidade de assumir o ponto de vista alheio podem permitir ao poderoso realizar objetivos de curto prazo, mas conduzem à diminuição do horizonte futuro. O processo civilizatório - custoso, exigente, cheio de sacrifícios para todos - perde pouco a pouco seu principal sentido: reduzir a incerteza com relação ao futuro, tornando a sociedade anômica e permitindo que numerosas formas de violência ocupem o espaço público; formas de violência econômicas, sociais, ambientais, políticas, discursivas, mas também físicas.

Subjugado pela sedutora sociedade do espetáculo - essa inversão perversa da cultura do diálogo -, o governo ignora o pensamento de longo prazo, seduzido, como está, pela ilusão de que onde termina o palco no qual realiza seus truques, uma plateia infinita o ovaciona desde a obscuridade.

Conquistado pela lógica do prestidigitador ou do ilusionista, o governo acredita que a arte de governar consiste em realizar uma sucessão de truques - ou tramoias - graças às quais aparecem e desaparecem direitos e patrimônios, amigos e inimigos, notícias e silêncios.

Incapaz de articular um discurso coerente durante uma função completa, o kirchnerismo pratica uma longa série de números isolados e vistosos que, enquanto atraem a atenção do público, lhe permitem conservar o centro do palco. A escuridão da sala não lhe deixa perceber, no entanto, que o auditório foi se esvaziando, e o espetáculo só é aplaudido pelo escasso público das primeiras filas de uma plateia integrada por ridículos admiradores de gestos desatinados. "O poder" - diz Galinsky - "é como um perfume forte e penetrante. Ele não só intoxica o portador, como também captura os que estão muito perto dele."

O espetáculo seria apenas triste e decadente não fosse o fato de envolver o poder do Estado. Um poder que derrubou tanto as instituições que devem controlá-lo quanto a capacidade de autocontrole de sua conduta. O paradoxo do poder é um real dilema para o caráter. Quando o desprezo pelas preocupações, as emoções e os interesses dos demais se faz contínuo, o poderoso provoca inimizade, amargura e rebeldia. "As funções supremas da coordenação do Estado" - escrevia Norbert Elias - "obrigam a uma contenção contínua e rigorosa."

Mais uma vez, a sociedade argentina foi indolente para exigir do poder uma prestação permanente de contas que teria evitado que ele perdesse o controle. Mais uma vez, a sociedade argentina entregou o Estado sem regular o poder. Aprender a evitar que isso ocorra novamente será, talvez, a principal tarefa que deixará este novo ciclo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* ALEJANDRO KATZ É EDITOR

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