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Gilles Lapouge
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Os pesadelos de Hollande

Onde está o presidente da França, François Hollande? Está num "pesadelo" e seus ministros lhe fazem companhia. Como num pesadelo, a cada manhã e em qualquer hora do dia, novas imagens vêm assombrar Hollande: rostos fazendo careta, monstros, assassinos que o jogam pela janela, cortam-lhe alguns ossos, arrancam-lhe os olhos.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 02h03

Num pesadelo real, o sonhador se tranquiliza dizendo que lhe basta acordar e todos aqueles dragões se esfumarão. Mas Hollande pode acordar e abrir os olhos que isso não lhe servirá de nada, pois as imagens que o perseguem não são de sonho: são as efígies do real.

Esclareçamos as últimas "estações" do Calvário. Há três dias, a ex-companheira de Hollande, Valérie Trierweiler, publicou sobre seu ex-companheiro um grosso livro rancoroso e indecente que nos fazia penetrar no quarto triste do presidente, e esse livro, desde que saiu, pulverizou os recordes de venda há pouco estabelecidos pelo livro nulo e pseudoerótico de E. L. James.

No dia seguinte, o pesadelo continuou: ficou-se sabendo que um secretário de Estado de Hollande se demitira. Nomeado há apenas duas semanas e já fritado? Aí nos fornecem a explicação: esse secretário de Estado não pagava seus impostos. Faz três anos que ele nem sequer fazia declarações de renda. Um cidadão que agisse assim iria preso, mas este foi nomeado ministro.

Para um homem que, como Hollande, se apresenta como a moral absoluta, que desastre! Na sexta-feira, o pesadelo continuou: ficou-se sabendo que Hollande tinha apenas 13% de aprovação (pouco mais de um cidadão em cada dez). E isso não é tudo. Alguns meses atrás, Hollande havia mudado o primeiro-ministro. Ele havia escolhido um socialista "de direita", Manuel Vals, rosto duro, queixo para frente, discurso seco, em suma, perfeito para seduzir a direita. Aliás, nos primeiros dias, o conceito de Vals era invejável. Mas hoje Vals acompanha Hollande no seu inferno. Ele tinha a missão de ser o "escudo" de Hollande, mas esse escudo está cheio de furos. Hollande está "completamente nu".

E agora? Alguns dias atrás, a pergunta, até aqui impensável, está em todos os lábios: Hollande conseguirá aguentar mais dois anos até o fim do seu mandato? Questão insólita, pois a Constituição de 1958 sacraliza a função de presidente da república. Esta Constituição foi basicamente obra do general De Gaulle e este, homem de autoridade, concedera ao presidente da república um status tal que ele não pudesse ser deposto por seus deputados ou pelo país. Um status quase monárquico.

Mas a posição de Hollande é tão frágil que seus adversários buscam um modo de destituí-lo. A mais determinada no campo de batalha é Marine Le Pen, chefe da Frente Nacional, partido de extrema direita. Ontem, Marine extrapolou. Propôs que a Assembleia fosse dissolvida e novos deputados fossem eleitos, com a esperança legítima de que a Frente Nacional, nestes tempos indecorosos, se tornasse o principal partido da França. Assim, ela obteria a presidência.

Marine Le Pen não é a única a encher as narinas com os odores deliciosos da "decomposição" do poder socialista. O ex-primeiro-ministro de Nicolas Sarkozy, o terno e triste François Fillon, está alerta como um "puro sangue", assim como outros dez políticos.

Mas, por enquanto, estes cálculos são prematuros contanto que Hollande não desabe sob o peso de sua nulidade. Contentemo-nos em reproduzir as últimas linhas do editorial do Le Monde (jornal de centro esquerda) publicado ontem: "Sua legitimidade pessoal está em frangalhos, sua legitimidade política está em ruínas e a confiança do país, próxima do zero. Durar e suportar não será suficiente para salvar seu mandato de um fim cruel, de um modo ou de outro". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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