Hadi Mizban/AP
Hadi Mizban/AP

Os piores dias da história no Iraque

País está entrando em colapso em quase todas as frentes; governo está naufragando

Alissa J. Rubin, The New York Times

01 de abril de 2020 | 07h00

BAGDÁ – Quando no Iraque ocorreram os primeiros casos de coronavírus, o ministro da Saúde pediu ao governo uma verba de US$ 5 milhões em fundos de emergência. Mas não havia recursos em caixa.

“Não há dinheiro em caixa, estamos em uma situação difícil”, comentou o ministro Jaafer Sadiq Allawi.

O Iraque está entrando em colapso em quase todas as frentes. As receitas do petróleo, a principal fonte de renda do governo, despencaram com a queda do preço mundial do produto e o governo teve de pedir doações para ajudá-lo a enfrentar a pandemia.

O toque de recolher, imposto em todo o país na tentativa de frear o avanço do vírus, fechou o comércio e fez com que os trabalhadores perdessem seus empregos.

O governo está naufragando desde que os protestos maciços afastaram o primeiro-ministro em novembro, e o Parlamento não conseguiu chegar a um acordo na escolha de um novo líder.

As milícias apoiadas pelo Irã ainda atacam regularmente as tropas americanas ameaçando arrastar ainda mais o Iraque nas hostilidades iraniano-americanas.

“Estes são os piores dias da minha vida aqui no Iraque,” disse Riyadh al-Shihan, um veterano militar. “Passei pela guerra Irã-Iraque, pelo levante, por Saddam Hussein, mas estes dias são piores”.

Um estranho silêncio desceu sobre Bagdá, a capital de oito milhões de pessoas. Nas rodovias não há carros por causa das restrições às viagens e, recentemente, em uma sexta-feira, os parques costumeiramente lotados estavam vazios.

O que torna a situação particularmente sombria é o fato de que a combinação de crises efetivamente acabou com toda a economia, disse Basim Entiwan, um economista de Bagdá. “A situação econômica atual é pior do que o que vimos antes porque todos os setores produtivos foram suspensos”, falou. “Não há indústria, não há turismo, não há transportes, e até certo ponto a agricultura também foi afetada”.

“Estamos vendo uma paralisia quase total da vida econômica e isto em meio aos protestos. Também as fronteiras estão bloqueadas dentro do país entre as províncias e a fronteira do Iraque com outros países”.

Os preços do petróleo caíram cerca de dois terços 65%. A queda violenta do preço foi um golpe muito forte  nas economias que dependem do petróleo, segundo Fatih Birol, diretor executivo da International Energy Agency, sediada em Paris. Mas o Iraque provavelmente será o país mais afetado. “O Iraque é o país onde o impacto será maior, porque não dispõe de recursos financeiros e porque 90% de suas receitas vêm do óleo”.

As reservas do Iraque, da ordem de US$ 62 bilhões, são consideradas inadequadas pelo Fundo Monetário Internacional.

O Iraque já enfrenta a pior crise política dos últimos anos. Milhares de manifestantes foram para as ruas desde outubro, exigindo um novo governo, o fim da corrupção e a restrição da influência iraniana.

Embora o número de pessoas tenha caído com o clima invernal, o toque de recolher não foi implementado rigorosamente e umas centenas de manifestantes permanecem nas cidades. Enquanto eles continuam mantendo a pressão sobre o governo, também representam um risco para a saúde por causa do alastrar-se do vírus.

“Esta crise é mais difícil porque, a bem da verdade, nós não temos um governo”, observou  Hassan Ali, que fez uma peregrinação a um santuário em  Bagdá apesar de ser orientado a ficar em casa, advertência que ele não quis ouvir porque não confia nos avisos do governo. / Tradução de Anna Capovilla

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