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Samsul Said/Reuters
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Os piratas de Malaca

Em 2014, 15 sequestros de navios foram registrados no Sudeste Asiático

The Economist

04 de julho de 2015 | 02h04

Oito homens armados abordaram o petroleiro Orkim Harmony, na noite do dia 11. Carregado com 6 mil toneladas de petróleo - no valor de US$ 5 milhões ao preço de mercado - o navio se aproximava do fim de uma viagem da costa oeste da Malásia, passando pelo Estreito de Malaca, para o Porto de Kuantan, na costa leste. Os piratas prenderam a tripulação e apagaram três letras do casco, disfarçando grosseiramente o nome da embarcação em Kim Harmon. Então rumaram para o norte na direção do Camboja, à procura de um porto amigo no qual pudessem transferir a carga.

Quando o barco finalmente foi avistado, sete dias mais tarde, os sequestradores advertiram as forças de segurança que poderiam pôr em risco a vida dos reféns, depois desapareceram num bote salva-vidas com todo o butim que conseguiram se apoderar.

O ataque ao Orkim Harmony foi o mais recente de uma série de sequestros ocorridos nos mares do Sudeste Asiático, onde, nas estreitas passagens que separam Cingapura e a Malásia da Indonésia trafega cerca de um terço do comércio marítimo mundial. Em 2014, foram registrados 15 sequestros, em comparação com apenas alguns em 2013. Segundo o International Maritime Bureau, somente nos últimos seis meses foram registrados nove. Estes incidentes são o sintoma mais alarmante do aumento da pirataria na região, que varia de pequenos furtos nos portos a operações mais ousadas no mar. Como as águas ao redor da Somália hoje são calmas graças ao esforço internacional, o Sudeste Asiático voltou a ser o alvo da pirataria.

Há dez anos, parecia que as nações do Sudeste Asiático haviam conseguido escorraçar os piratas, graças em parte ao patrulhamento naval coordenado no Estreito de Malaca, ao largo da costa sudoeste da Malásia. Mas o problema se deslocou para o leste. Os recentes incidentes estão ocorrendo em águas mais próximas de Cingapura, nos canais congestionados que permitem que os piratas se escondam, assim como na parte mais escondida no sudoeste, e mais selvagem do Mar da China Meridional. Ao contrário dos piratas somalis, que preferiam sequestrar membros da tripulação e pedir resgate, os do Sudeste Asiático roubam petróleo, óleo de palma e produtos químicos de pequenos petroleiros que se deslocam com lentidão, e quase sempre liberam navio e tripulação quando terminam a operação.

Atualmente, estes crimes afetam apenas uma fração dos cerca de 120 mil navios que anualmente passam perto do estreito. Mas, segundo os próprios marinheiros, os ataques estão ficando mais violentos, e o uso de armas de fogo é mais frequente. Um marinheiro vietnamita, que levou um tiro na cabeça durante um sequestro frustrado em dezembro, foi uma das três vítimas dos piratas do Sudeste Asiático, naquele ano.

Além disso, pequenos ladrões podem causar acidentes ao tentar abordar um navio em águas congestionadas, afirma Philip Belcher da Intertanko, uma associação de proprietários de petroleiros. Uma grande preocupação é o fato de que as seguradoras aumentarão os prêmios dos navios que trafegam no estreito, como fizeram brevemente em 2005.

Os armadores queixam-se de que alguns governos complacentes reduziram as patrulhas costeiras. Alguns acusaram a ReCaap - uma empresa que ajuda a coordenar a defesa dos governos asiáticos à pirataria - de menosprezar os últimos incidentes, talvez para evitar embaraços aos países (a ReCaap sugeriu, não sem razão, que o aumento registrado pode ser em parte resultado de uma melhoria das comunicações). As empresas mercantes querem que os navios regionais intensifiquem as operações contra a pirataria.

As autoridades de Indonésia, Cingapura e Malásia afirmam que estão discutindo isso. Mas toda viagem para o Mar da China Meridional pode se tornar controvertida enquanto as tensões se intensificam em razão das reivindicações territoriais da China na região. As animosidades entre os três países do Sudeste da Ásia já dificultam as operações mais perto de suas costas, impedindo que embarcações da Marinha persigam os piratas que fogem para as águas dos vizinhos. O próprio compartilhamento de informações é uma questão sensível: a Malásia e a Indonésia não fazem parte da ReCaap , segundo alguns, em parte em razão das disputas quanto ao país que deve hospedar sua sede, mas talvez também por temerem expor pontos fracos em sua coleta de informações.

A Indonésia se mostra particularmente receosa. O país é muito mais pobre do que seus vizinhos em termos de renda per capita, e seus barcos de patrulha são velhos e dispendiosos. Várias de suas ilhas, mal policiadas, constituem esconderijos para os piratas; os portos mal guardados do país favorecem muitas oportunidades de roubo.

Além disso, provavelmente o país não dá grande prioridade à segurança dos corredores de navegação locais, reconhece Ian Storey da ISEAS, uma comissão de especialistas, pois os benefícios desses corredores beneficiam de maneira desproporcional os grandes portos de Cingapura e da Malásia.

Mas parte da responsabilidade pela solução do problema deve também recair nos proprietários de navios e nos operadores. Os piratas somalis foram dissuadidos quando os armadores gastaram algum dinheiro para equipá-los com canhões de água, arame farpado e guardas armados. Os piratas do Sudeste Asiático fogem quando tripulações vigilantes os detectam antes da abordagem. As companhias de transporte marítimo frequentemente relutam em informar sobre os ataques para não alarmar clientes e seguradoras. Mais alarmante é a especulação de que os tripulantes mal pagos possam ter sido cúmplices em alguns sequestros.

A solução mais duradoura e a menos discutida, seria, em primeiro lugar, tratar dos complexos problemas sociais e econômicos que encorajam os piratas a portarem armas brancas em primeiro lugar. No passado, isso resolveu conflitos prolongados. Um acordo de paz entre o governo indonésio e os rebeldes da Província de Aceh, em 2005, contribuiu para aliviar antigos problemas com os piratas do Sudeste Asiático. Acredita-se que muitos desses piratas sejam originários de miseráveis cidadezinhas portuárias indonésias, onde a pesca excessiva, ilegal, e os danos ao meio ambiente tornaram mais difícil ganhar a vida. Acredita-se também que os piratas que agiam alguns anos atrás voltaram a agir.

O presidente da Indonésia, Joko Widodo, prometeu revigorar a fraca economia marítima do país. É uma boa ideia, embora o progresso deva ser lento. Enquanto isso, a imediata prisão dos piratas em alguns episódios recentes mais graves deverá dissuadir os sequestradores animados pelos sucessos iniciais, afirma Pottengal Mukundan, do International Maritime Bureau, uma ala da Câmara Internacional do Comércio.

Entre os presos estão os supostos sequestradores do Okim Harmony, que foram apanhados por guardas costeiros vietnamitas no dia 19.

Mas Belcher, do International, diz que os proprietários de navios continuam em grande parte pessimistas. "A situação deverá piorar antes de conseguir melhorar", observou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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