Lionel Bonaventure / AFP
Lionel Bonaventure / AFP

Os planos de Macron

O fosso aberto pela eleição alemã vai demorar a se fechar, limitando as ações de Merkel

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2017 | 05h00

Emmanuel Macron fez seu grande discurso sobre a Europa. E todos encantos do novo presidente francês foram empregados. Ele falou em um daqueles “lugares grandiosos” dos quais tanto gosta, a Sorbonne, a nobre universidade que reina sobre Paris desde a Idade Média. Demonstrou a inteligência e a sutileza que ele tem de sobra. E acrescentou aquela dose de lirismo que ele aplica a seus grandes discursos, assim como as mulheres acrescentam ao magnífico aroma de sua pele as fragrâncias sofisticadas de Chanel ou Christian Dior.

Um artigo de luxo, portanto. E, como tal discurso tinha o propósito de despertar a União Europeia de seu profundo sono dogmático, de suas falhas, disputas e hesitações, o belo discurso da Sorbonne devia ter levado um sopro de entusiasmo a Berlim (Merkel, a exemplo de Macron, é defensora fervorosa da UE, espécie em extinção nos dias de hoje). Mas, por enquanto, silêncio absoluto. E benévolo.

Nada mais lógico. Três dias atrás, Merkel estava preparada para, com Macron, prescrever alguns remédios amargos para a UE. Mas, no domingo, ocorreram eleições legislativas na Alemanha. Merkel ganhou, mas sua vitória foi tão estreita que, para governar, ela terá de fazer alianças com partidos ligados ao euroceticismo, como, por exemplo, os liberais do FDP, cujo líder logo disse que recusa a ideia de Macron de um orçamento para a “zona do euro”.

Mesmo o CSU, partido irmão do CDU de Merkel, declarou ontem que “Macron quer jogar a dívida pública francesa nas costas dos outros, é um procedimento inaceitável”.

Macron já previra esses atritos. É por isso que, apesar de seu ardor, falou de maneira vaga sobre as reformas que poderiam acabar com a letargia da Europa. Ele se limitou a enumerar os “campos para uma refundação” da União Europeia: níveis e velocidades de integração variáveis, segurança, proteção das fronteiras, migração estruturada, defesa conjunta, harmonização fiscal, proteção ambiental, cultura, ensino de línguas, administração dos gigantes digitais, capacidade de defender o mercado europeu. Macron se absteve de entrar em detalhes. Prudência.

Dessa forma, graças a seu virtuosismo retórico, ele conseguiu apresentar seu plano de “refundação” com pompa e circunstância, mas sem colocar a querida aliada Merkel em situação desconfortável. Em certo sentido, aos olhos de alguns analistas, o relativo revés eleitoral de Merkel no domingo é uma boa notícia para Macron. Até agora, a UE avançou graças ao seu motor franco-alemão, mas, obviamente, o motorista do carro europeu era a Alemanha, e a França era apenas o copiloto. 

Mas agora Merkel está condenada a passar algumas semanas retraída, a portas fechadas, gastando um tempo para pôr em ordem suas alianças com outros partidos alemães. E a França, dizem os mais entusiasmados, pode aproveitar para assumir o volante. Hoje (27) pela manhã, vários programas da TV francesa exibiam chamadas que apontavam nessa direção, às vezes com um tom vaidoso e meio ridículo: “Rumo à Europa de Macron” ou “Macron, líder da União Europeia”. 

Imprudente e prematuro ao mesmo tempo. O perigo é que o fosso aberto pelas eleições alemãs no front europeu vai demorar para se fechar. Nesse caso, Macron estaria de fato no banco do piloto, mas com comandos aos quais a máquina nem sempre responderia...

É muito bom ser “o comandante da Europa”, mas também é necessário que esse líder tenha algumas tropas. A Grã-Bretanha abandonou o campo de batalha, a Alemanha ficará na retaguarda por alguns meses, os países do Leste Europeu estão contaminados por fascismos leves e rigorosos, a Espanha está repleta de desempregados, enquanto a Catalunha faz misérias com Madri: os heróis da União Europeia, à exceção de Macron, estão exaustos.

Se um comandante não comanda ninguém além de si mesmo, ele continua sendo comandante? É verdade que ainda existem soldados disponíveis na Europa, mas estes não são os mais vigorosos: Itália, Espanha, Portugal e até mesmo Grécia, em meio às cinzas. E não vamos esquecer: a ilha de Malta e a ilha de Chipre. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.