Os portugueses redescobrem Angola

Empresários apostam na ex-colônia africana para recuperar o crescimento econômico após impacto da crise financeira global

Raphael Minder, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES/ LISBOA

António Cunha Vaz, com a mãe e a irmã, participou do êxodo maciço dos portugueses de Angola, em 1975, quando o país conquistou a independência antes de mergulhar numa devastadora guerra civil. Mas em 2008, António abriu um escritório de sua empresa de consultoria de relações públicas em Luanda, a capital de Angola, e no ano passado, a companhia obteve 37% de sua receita de 22 milhões de euros do país africano.

Portugal, uma das economias mais frágeis da Europa, decidiu colocar cada vez mais suas esperanças de recuperação em Angola, uma ex-colônia que transformou-se numa das economias mais vigorosas da África subsaariana ? graças em grande parte ao petróleo e aos diamantes. A transformação ocorre porque a concorrência está mais difícil no Brasil, outra ex-colônia em grande recuperação, enquanto os tradicionais parceiros europeus de Portugal, liderados pela Espanha, lutam endividados e com um desemprego galopante.

Angola já se tornou o maior mercado exportador de Portugal fora da Europa, com a aquisição de 7% das exportações portuguesas no ano passado, em comparação com 1% em 2000. Maquinário e equipamento industrial lideram a lista, juntamente com alimentos, bebidas e metais.

Mais espetacular ainda do que o fluxo comercial foi talvez a chegada de uma nova geração de portugueses para trabalhar em Angola, tendência que deverá ganhar força. No ano passado, 23.787 portugueses mudaram-se para Angola, em comparação com apenas 156 em 2006, informou o observatório da imigração portuguesa. Ressaltando a crescente importância da ex-colônia, Aníbal Cavaco Silva, o presidente português, fez na terça-feira sua primeira viagem a Luanda com uma delegação de 80 executivos portugueses.

Os portugueses não são os únicos a pôr os olhos em Angola. A China começou recentemente a participar da recuperação econômica de Angola, tentando garantir o acesso aos seus recursos naturais em troca de ajuda na construção da infraestrutura destruída nas três décadas de guerra.

Embora as companhias portuguesas não tenham cacife para concorrer com os chineses , a língua comum, além de vínculos culturais, pode representar uma vantagem para os portugueses.

Os portugueses aportaram anteriormente em outras ex-colônias, como o Brasil, para conseguir contrabalançar as receitas escassas em pátria.

No entanto, a opinião entre os analistas é que o Brasil é grande e já avançou suficientemente para continuar crescendo por conta própria. Além disso, as companhias portuguesas fizeram investimentos inconstantes no Brasil. Por exemplo, os varejistas portugueses fizeram tentativas ambiciosas no Brasil na década de 90, e acabaram tendo problemas com a desvalorização da moeda e a forte concorrência interna.

"O mercado brasileiro foi sempre nossa tela de radar, mas nós fizemos várias tentativas lá nem sempre bem-sucedidas", observou Cristina Casalinho, principal economista do banco português BPI. "Estou cética em relação ao Brasil, enquanto Angola representa algo que poderá continuar, com investimentos diretos que substituiriam gradativamente as exportações como uma parte mais importante do relacionamento".

Embora a vida na capital angolana possa ser "difícil, perigosa e cara" em comparação com Lisboa, "quando você vê o desemprego que existe em Portugal, acho que com certeza haverá mais pessoas dispostas a se mudarem para cá em busca de um bom emprego".

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