Os pré-candidatos dos EUA contra o mundo

Eleitores precisam de mais do que slogans vazios e invectivas gastas para fazer uma escolha consciente em novembro

CHRISTOPHER HILL*, PROJECT SYNDICATE

02 Janeiro 2016 | 19h00

Na maratona política conhecida como campanha presidencial americana, a política externa é usada frequentemente como exemplo do “rigor” de um candidato. Por outro lado, os candidatos frequentemente atacam problemas internos para demonstrar, na sua opinião, o domínio dos detalhes – às vezes, até apresentando o esboço de um programa que quase certamente esquecerão com sua eventual vitória.

O foco nessas questões “de bolso” dos candidatos oferece algum vislumbre de sua visão das coisas. Mas o problema é comunicar a resposta dos candidatos às preocupações do americano médio, o que significa que a política externa em geral passa a ocupar um lugar secundário nas campanhas presidenciais.

Este ano, no entanto, a política externa ocupa um lugar central. As questões com que os EUA se defrontam – o caos na Síria, a agressiva presença militar da Rússia e a emergência da China como parceira econômica e também como adversária estratégica – são demasiado importantes para ser ignoradas. Embora isso sugira que os candidatos precisam mostrar um domínio da política, e inclusive, vez por outra, uma autêntica postura de estadistas, eles se limitam a assegurar aos eleitores que “cuidarão da nossa segurança”, como se isso significasse alguma coisa útil no que diz respeito a como sobreviver e prosperar no mundo de hoje.

A política externa americana oscila tradicionalmente entre a intervenção e o isolamento. Hoje, a questão é muito mais complicada. Enquanto a ameaça se torna cada vez mais clara a cada ataque terrorista, os isolacionistas passam a ser ardorosos intervencionistas. Mas seu intervencionismo tende a ser unilateral. Em outras palavras, o unilateralismo é o internacionalismo dos isolacionistas.

O que ouvimos dos candidatos coaduna-se em grande parte com esse quadro. Uma maneira transacional de pensar, em que problemas precisam ser resolvidos rapidamente – e muitas vezes com o emprego maciço da força militar – ignora o imprescindível e difícil trabalho diplomático preliminar para o sucesso da política externa a longo prazo. Por exemplo, há algo mais a ser levado em consideração nos apelos do senador Ted Cruz para a realização de “bombardeios de saturação” do território iraquiano e sírio nas mãos do Estado Islâmico do que o vago entendimento de que ali existe uma praga que precisa ser exterminada.

O EI é de fato uma praga. Mas os eleitores americanos (e o resto do mundo) precisam de algum sinal de que os candidatos à presidência sabem explicar, em primeiro lugar, como essa praga chegou lá e o que deve ser feito para garantir que não volte a aparecer em outro lugar. 

Por exemplo, os candidatos acreditam que as alianças são importantes para os EUA? Em seus debates cara a cara na televisão e e viagens de campanha, evidenciam uma escassa preocupação pelo papel dos acordos de segurança institucionalizados (e muito menos pelo direito internacional) nos últimos 70 anos.

Os americanos compreendem cada vez mais que enfrentar problemas e desafios no âmbito nacional muitas vezes implica em dolorosos compromissos. Quando se trata de problemas e desafios externos, no entanto, a admissão de que os EUA nem sempre podem fazer o que querem é vista como sinal de fraqueza na defesa da liberdade ou da segurança dos EUA. Donald Trump levou essa abordagem a um novo extremo.

A promessa de Trump de “recuperar a grandeza dos EUA” pressupõe que isso não seja verdade. De fato, os EUA já são grandes e foram grandes ao longo do último século. O desafio, que o slogan desastrado de Trump deixou de lado, é fazer com que continue sendo grande e atue num complexo panorama internacional de maneira que seus amigos não duvidem da grandeza e seus adversários não a desafiem.

Uma política externa sustentável não pode ser todas as coisas para todas as pessoas – e um candidato precisa ser mais claro com os eleitores nessa questão. A arte de governar com sucesso exige que se façam boas escolhas e essas medidas produzam as consequências desejadas.

Apesar de todas as críticas feitas ao presidente Barack Obama (particularmente a sugestão de que ele continua ruminando se os EUA devem intervir ou não), em muitas questões ele tem demonstrado coerentemente a importância de se compreender os compromissos necessários – os riscos e as oportunidades – implícitos numa determinada política ou ação. Os eleitores precisam ouvir mais do que slogans gastos e invectivas políticas para uma escolha consciente.

A campanha esquentará no momento em que os EUA estarão enfrentando uma quantidade assustadora de problemas. Como deverão abordar a criação da China não apenas de fatos no terreno, mas o próprio terreno, no Mar do Sul? A anexação da Crimeia pela Rússia continuará para sempre? Como os EUA poderão responder com firmeza à agressão russa sem abandonar o projeto de longo prazo de aproximá-la do Ocidente? Existe uma alternativa a enviar tropas terrestres de volta ao Oriente Médio?

São inúmeras as questões que os americanos devem considerar ao decidir por um ou por outro candidato. Para melhor ou para pior, a possibilidade de fazê-lo com a seriedade que elas merecem dependerá em grande parte dos próprios candidatos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

* É EX-SECRETÁRIO DE ESTADO AMERICANO ASSISTENTE PARA A ÁSIA ORIENTAL, REITOR DA KORBEL SCHOOL OF INTERNATIONAL STUDIES, NA UNIVERSIDADE DE DENVER, E AUTOR DO LIVRO ‘OUTPOST’

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