Os próximos quatro anos e o golpe no Partido Republicano

Análise: David Brooks / NYT

O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2013 | 02h07

A segunda posse do presidente Barack Obama vem num momento interessante, que se poderia chamar de o fim da Grande Barganha. Durante seu primeiro mandato, democratas e republicanos não chegaram a um grande acordo sobre gastos e impostos, mas houve a sensação de que a história estava avançando nessa direção.

A polarização é profunda. Os republicanos não abrirão mão de sua visão de um país com baixos impostos. Os democratas não estão dispostos a mudar os programas sociais. Assim, é preciso haver uma nova narrativa de controle, uma nova estratégia de como passar os próximos quatro anos. Como sabem, sou um defensor do bom governo, de modo que a estratégia que prefiro poderia ser chamada de "Aprendendo a Engatinhar". Ela se basearia na noção de que é preciso aprender a engatinhar antes de correr. Assim, nos próximos quatro anos, os congressistas deveriam trabalhar em uma série de leis realistas.

Faríamos algumas reformas na educação, expandiríamos as leis dos vistos para admitir mais trabalhadores especializados e encorajaríamos a perfuração responsável para extrair gás natural. Os líderes políticos abrandariam as ortodoxias partidárias e retornariam ao hábito de aprovar leis em conjunto. Depois, mais adiante, seus sucessores poderiam fazer as coisas grandes.

Eu posso ser confiante, mas não sou idiota. Sei que há poucas chances de que os atores partidários de hoje adotem esse tipo de abordagem. É mais provável que o partido majoritário prefira uma estratégia diferente, que pode ser chamada de "Mate o Ferido". É mais provável que os democratas digam: "Vivemos um momento único. Nossos adversários, os republicanos, estão divididos, confusos e sangrando. Não é hora de permitir que eles reconstruam sua reputação com uma série de realizações discretas. A hora é de chutá-los agora, que estão caídos, de conquistar a Câmara e pôr fim à versão atual do Partido Republicano."

"Primeiro, conseguimos mudar a narrativa. O presidente concorreu em 2008 contra a disfunção de Washington, atribuindo a culpa a ambos os partidos. Com o tempo, ele migrou para uma narrativa diferente: os republicanos estão loucos. Em cada aparição, o presidente deve insistir nesse tema. A base democrata acredita nele. A mídia é simpática. Os independentes podem ser persuadidos.

"O presidente não deve propor novas medidas que unam os republicanos, como a reforma do sistema de saúde fez no primeiro mandato. Ele deve levantar uma série de questões para dividi-los. Ele começou com um pacote de controle de armas, convidando a uma longa batalha contra a Associação Nacional do Rifle. Depois, ele pode reintroduzir a reforma da imigração de George W. Bush. Isso dividirá os grupos anti-imigração.

"Depois, ele poderia provocar uma série de confrontos com os republicanos sobre coisas como o teto da dívida - fazê-los parecer malucos e dispostos a colocar em risco a economia global. No caminho, destacaria algumas questões ligadas às mulheres, à mobilidade social (crédito educativo, financiamento de faculdades comunitárias) e escolheria lutas sobre questões humanitárias (como o alívio aos danos do furacão), promovendo programas de gastos populares aos quais os republicanos se opõem. Duas vezes por mês, os democratas deveriam obrigar os republicanos a uma escolha terrível: ofender seus aliados tradicionais ou receber críticas da direita."

Os democratas farão de tudo para reconquistar a Câmara. Os especialistas estão divididos sobre a viabilidade disso, mas o Partido Republicano é impopular e a oportunidade existe. Não é esta Washington que eu quero cobrir, mas é a mais provável. Como os republicanos responderão a esse massacre? Não faço ideia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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