Os que realmente lideram a mudança

Sejam eles quem forem, não falam em congressos nem parecem ansiosos por celebridade ou por riqueza com o lançamento do projeto sensacional

DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h20

Como preciso criar duas colunas por semana para você, caro leitor, preciso de algum tempo para buscar novas ideias nos congressos. Quando você está neste circuito, tem eternamente a ilusão de ouvir falar de pessoas jovens e estimulantes que vão mudar a história.

Por exemplo, você ouve Shai Agassi, brilhante empreendedor da área de tecnologia, que acabou de criar uma inovadora empresa de carros elétricos; de algum mago que tem uma nova tecnologia de painéis solares, ou de algum novo empreendedor da área das redes sociais.

A impressão que tenho, nos últimos cinco anos, é que os capitalistas dos circuitos dos congressos e das conferências que fazem apresentações fantásticas revelaram ser atores à margem da história, enquanto pessoas supertediosas e ultrapassadas demais para serem convidadas para participar dos congressos mudaram realmente o mundo debaixo do nosso nariz.

A companhia de Shai Agassi, a Better Place, por exemplo, criou radiosos perfis para as revistas, mas conseguiu perder mais de US$ 500 milhões e vendeu poucos carros. Ele deixou o cargo de diretor executivo e sua substituição demorou apenas alguns meses. Ocorre que coisas que são excitantes para políticos e capazes de mudar os paradigmas para as plateias não são necessariamente atraentes para os consumidores.

Ao mesmo tempo, os anônimos trabalhadores das corporações agrícolas americanas estão exportando anualmente produtos no valor de US$ 500 milhões e transformando o centro-oeste americano. Os executivos ultrapassados das companhias petroquímicas andaram arrancando árvores de lugares como o Chile, transferindo-as para lugares como a Louisiana, transformando as perspectivas econômicas no sudeste do país. O mais importante é que os velhos e tediosos engenheiros de petróleo e gás transformaram o equilíbrio global de poder.

Em 2020, os Estados Unidos ultrapassarão a Arábia Saudita tornando-se os maiores produtores de petróleo do mundo, segundo a Agência Internacional de Energia. Os EUA já superaram a Rússia e são os maiores exportadores de gás do mundo. O combustível tornou-se o maior item das exportações americanas.

Dentro de cinco anos, segundo um estudo do Citigroup, a América do Norte poderá se tornar independente em matéria de energia. "A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) terá dificuldade em sobreviver mais 60 anos, e muito menos mais 10", afirmou à CNBC Edward Morse, pesquisador do Citigroup.

Tudo isso foi realizado por pessoas que existem em grande parte além do alcance do circuito dos meios de comunicação.

Joel Kotkin identificou os epicentros do dinamismo econômico dos EUA em um estudo para o Manhattan Institute. É como um gigantesco arco de coisas antiquadas. Você começa nos Montes Dakotas, onde o desemprego está em patamares microscópicos. Cai nos cinturões de energia das grandes planícies até que chega ao Texas. Então, vira à esquerda para chegar aos pontos em que a produção de fertilizantes e outras indústrias estão se recuperando, como as áreas da Terceira Costa na Louisiana, no Mississippi e no norte da Flórida.

Vanity Fair ainda faz uma classificação dos magnatas da tecnologia e da mídia e a chama de "o novo establishment", mas, como observa Kotkin, os grandes ganhadores na economia dos dias atuais são as pessoas que têm "materiais", que possuem grãos, fazem prospecção de petróleo e instalam oleodutos.

Ao mesmo tempo, aumentam os países em crescimento no mundo. Frequentemente são os cinturões de commodities, lugares ricos em recursos com um bom Estado de direito, como Canadá, Noruega e Austrália.

Daniel Yergin, um guru do setor energético, observou em sua sabatina no Congresso americano, no mês passado, que a revolução na extração de petróleo e gás permitiu a criação de 1,7 milhão de novos empregos somente nos Estados Unidos, número que poderá subir para 3 milhões até 2020.

A revolução do óleo de xisto acrescentou US$ 62 bilhões às receitas federais em 2012. Ao mesmo tempo, as emissões de dióxido de carbono caíram 13% desde 2007, pois está sendo usado gás em lugar de carvão para gerar eletricidade.

A maior parte das pessoas cresceu num mundo em que pressupúnhamos que a energia era escassa, ou mesmo estava acabando. Agora, talvez estejamos ingressando em um mundo de abundância de energia relativamente barata.

A maioria das pessoas cresceu num mundo em que os países produtores de petróleo no Oriente Médio poderiam exercer sua influência por causa do seu peso no que se refere ao elemento vital da economia. Mas o poder dos países petrolíferos está desaparecendo.

Yergin afirma que as sanções petrolíferas contra o Irã talvez não tivessem sido sustentadas se não fosse por causa das novas fontes alternativas de oferta.

Nós nos acostumamos a regimes despóticos na Rússia e na Venezuela que vivem da riqueza do petróleo e do gás. Mas esses regimes enfrentam um conjuntura difícil, também. A Gazprom já está oferecendo cerca de 10% de desconto sobre os contratos em vigor.

Nigerianos e venezuelanos poderão achar difícil competir. Na China e em outros países, as pessoas perguntam-se se a revolução do fraturamento hidráulico implica que o século 21 será outro século americano, assim como o anterior.

Quais são os nomes das pessoas que lideram a mudança? Quem é o Steve Jobs do petróleo de xisto? As capas das revistas não dão as respostas. Sejam elas quem forem, não parecem ansiosas por celebridade ou por riqueza com o lançamento do projeto sensacional. Elas são fortes em termos econômicos, mas em termos culturais não constam deste mapa. Essa revolução não será alardeada. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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