Os reais heróis do nosso tempo

É muito bom que 20 presos políticos cubanos tenham sido libertados e ido para a Espanha com suas famílias. É bom que o governo de Raúl Castro tenha prometido libertar mais algumas dezenas nos próximos meses. Devemos nos alegrar por isto.

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

A primeira coisa que cabe perguntar a respeito desse punhado de exilados é quem são. Nenhum deles pertence ao antigo regime, todos nasceram e foram formados pela revolução e, portanto, sua dissidência não nasce da nostalgia de um passado que não conheceram, mas do repúdio de uma ditadura da qual padeceram de dentro, que despertou neles um anseio de liberdade.

Por suas profissões, eles representam todo o leque social: operários, artesãos, ex-soldados, jornalistas, ex-funcionários. Que crimes foram esses pelos quais foram condenados a penas duras de 12, 15, 20 anos de prisão? Assinar petições, escrever artigos, ter uma máquina de escrever, constituir um grupo de defesa dos direitos humanos ou escritórios de informação independentes, atividades pacíficas e alheias a qualquer tipo de subversão ou violência.

Se somarmos a isso as infinitas humilhações , espancamentos, torturas e castigos de que foram vítimas, não há dúvida de que cada um deles é uma testemunha viva da brutalidade irracional aplicada pelo regime castrista contra os que não se submetem com total servidão e do heroísmo necessário para enfrentar, ainda que da maneira mais benigna, uma ditadura totalitária como a cubana.

Por que puderam sair da ilha? Pelos bons ofícios da Igreja Católica e do governo espanhol, segundo a fórmula empregada pelo chanceler Miguel Angel Moratinos? Tenho a impressão, ao contrário, de que o governo cubano, vendo-se numa situação difícil depois da morte do dissidente Orlando Zapata, após 86 dias de uma greve de fome que provocou condenações em todo o mundo, e da morte iminente de Guillermo Fariñas, que estava havia cerca de 130 dias em jejum, decidiu fazer um gesto e serviu-se de ambos para seus próprios fins. Quais são eles?

Primeiro, esvaziar a campanha no exterior contra o regime e melhorar um pouco sua desprestigiada imagem institucional. Segundo, o mais importante, conseguir que a União Europeia abandone a posição comum que suspende toda a colaboração econômica com o regime enquanto não houver uma melhora concreta dos direitos humanos na ilha.

Para a ditadura cubana, que vive uma situação econômica crítica da qual não sabe como sair porque teme que a abertura aos investimentos privados e a liberalização do mercado a debilite, a cooperação e a ajuda externa são o balão de oxigênio indispensável para prolongar sua vida. É ingênuo pensar que a libertação de dezenas de presos políticos constitua uma reforma substantiva da política do regime contra a oposição.

Um dos traços mais repugnantes da ditadura caribenha foi seu hábito de presentear com presos os políticos os ocidentais que faziam o beija-mão ao ditador, para que ganhassem bônus em seus países como "salvadores" e dessem seu testemunho de quão flexível o regime podia ser quando tratado com compreensão.

Somente uma tirania cuja reserva de prisioneiros políticos é um saco sem fundo pode se permitir, sem nenhum risco, esse abjeto tráfico de carne humana nas relações públicas, podendo substituir à vontade os presos que oferece a seus hóspedes importantes.

Por enquanto, nada mudou, exceto que alguns heróis do nosso tempo puderam sair de Cuba com seus familiares para o difícil caminho do exílio e continuar lutando, no exterior, pela democratização do seu país. Os meios de comunicação cubanos não disseram uma palavra do que ocorreu, com exceção da reprodução no Granma de um comunicado do arcebispado, que deve ter deixado seus leitores sem entender coisa nenhuma.

Não há uma única disposição, regulamento ou lei que serviu para mandar para a prisão os dissidentes que tenha sido suspensa, abolida ou corrigida, nem a menor promessa do governo cubano que permita supor que a libertação seja o início de uma política de tolerância com os presos de consciência.

O governo socialista espanhol acredita que seja isto o que está ocorrendo. Esse é o argumento com o qual Moratinos procurará convencer a União Europeia para que suspendam a posição comum, substituindo-a por uma política de reconciliação, amizade e "diplomacia silenciosa".

Confesso que nunca entendi por que motivo um governo democrático, no qual há um grande número de opositores do franquismo, que viveram na própria carne o que significa uma ditadura totalitária, adota em relação a Cuba uma política que, em termos práticos serve apenas para prolongar, há mais de meio século, a existência de uma ditadura atroz. E, o que é pior, que constitui uma hostilidade flagrantes contra uma oposição que, jogando com a própria vida e expondo-se a abusos e represálias, luta para que Cuba alcance o que a Espanha tem desde a morte de Franco.

Muitas vezes, fiz a mim mesmo essa pergunta e cada vez me parece mais difícil encontrar uma resposta que não implique numa patética falta de visão, pequenez e cegueira. A aproximação do governo espanhol com a ditadura cubana será simplesmente uma maneira de mostrar uma mudança radical da política em relação à do governo de José María Aznar, que convenceu a Europa a adotar a posição comum? Se for assim, a política externa da Espanha não passa de um joguete desorientado a serviço de mesquinhas querelas partidárias, sem continuidade, horizonte geopolítico e nem moral.

Talvez, a explicação seja outra. O socialismo espanhol, felizmente para a Espanha, de socialismo tem só o nome. Como todos os partidos socialistas do Ocidente, o espanhol se modernizou e abandonou os velhos paradigmas ideológicos, a luta de classes, o estatismo, o coletivismo, o dirigismo econômico.

Assim, acabou se conformando a realidades que antes combatia com rancor: empresa privada, mercado, investimentos estrangeiros. Ele é hoje um baluarte do capitalismo e da democracia liberal. Suas diferenças em relação aos partidos conservadores são pequenas e nada transcendentes, salvo na retórica de seus dirigentes, na qual, às vezes, emergem os antigos clichês da ideologia ultrapassada.

Eu me pergunto se a política imoral do governo espanhol, de colaboração com o castrismo, não seria uma maneira de seus dirigentes demonstrarem a si mesmos que não deixaram de ser socialistas, que fazem de tudo para salvar a Revolução Cubana, que é ainda o emblema daquele socialismo que eles abraçaram quando eram jovens.

Talvez isto acalme sua consciência e, fugazmente, os isente da tristeza de comprovar, a cada passo, que em toda parte, menos em Cuba, deixaram de ser "revolucionários" e tornaram-se pragmáticos.

Que pena que toda essa operação de declaração de inocência de um governo, que deveria liderar o apoio dos países livres aos heróis da liberdade em Cuba, se dê às custas de 11 milhões de cubanos submetidos, há mais de meio século, a um regime que disputa com a Coreia do Norte o privilégio de ser a última ditadura comunista do planeta.

Faço votos para que, atendendo ao pedido dos presos políticos desterrados de Cuba, a União Europeia não cometa a imprudência de renunciar à posição comum e a mantenha até que o regime dos irmãos Castro dê passos concretos rumo à democratização. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É ESCRITOR PERUANO

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