'Os reformistas, enfim, se tornaram pragmáticos'

Especialista diz ao 'Estado' que opositores de Ahmadinejad aprenderam com os erros de 2009 e estão mais maduros

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2013 | 02h07

Para o sociólogo Kevan Harris, pesquisador do departamento de estudos do Oriente Próximo, Universidade Princeton, que desde 2007 vive entre os EUA e o Irã, a política iraniana amadureceu depois dos protestos de 2009. Veja trechos da entrevista.

Com o líder supremo como autoridade máxima, o que muda com um novo presidente?

O líder supremo tem o controle de veto sobre várias áreas. Mas isso não significa ter o controle completo. Você não consegue colocar todos os políticos sob um mesmo guarda-chuva. Ele tenta, mas não consegue. É o conflito entre as diferentes linhas políticas - na economia, cultura, política externa - que produz mudanças. Todos se dizem leais a Ali Khamenei, mas divergem dele em um certo grau. A questão é em que grau - 10%, 20%? Será o quanto eles avançarão na direção contrária. Por isso os reformistas estão apostando no Hashemi (Rafsanjani), porque ele pode avançar mais na direção que eles querem. É assim que caminha a política no Irã.

Rafsanjani foi presidente duas vezes. Não é mais do mesmo?

Não na realidade iraniana. Muitos dizem: 'não vou votar, são todos iguais, um monte de mulás', mas no dia da votação 70% votam. Obviamente, se Rafsanjani concorrer e se eleger, não mudará o país, mas pode colocá-lo em outra direção.

Por que os reformistas não apresentaram candidato?

Não querem cometer o mesmo erro de 2005, quando apoiaram um candidato completamente novo em vez de Hashemi. Não era um clérigo; era moderno, tinha boa aparência e atraía os jovens. Mas isso acabou por dividir os eleitores e um certo prefeito de Teerã - Mahmoud Ahmadinejad - levou a melhor. Foi um grande erro.

O que aconteceu com o Movimento Verde?

Foi um movimento social espontâneo, uma onda de protestos que acabou. Ninguém sabia como lidar com aquilo, o que fazer com as pessoas nas ruas. (Mir Hossein ) Mousavi (em prisão domiciliar) basicamente pegou carona no movimento verde, não o liderava. E para ser um movimento underground você precisa de liderança. Para sustentar um movimento guerrilheiro como no Brasil nos anos 70, você precisa de recursos e apoio organizacional e isso não existe no Irã. Muitas entidades reformistas foram fechadas pelo governo no dia seguinte às eleições. Agora os reformistas não querem provocar ações de rua porque sua situação ficou pior depois de 2009. Eles acham que a melhor forma de agir nesse momento é engajar-se novamente no processo eleitoral e fizeram uma escolha estratégica por Hashemi. E Hashemi não é estúpido. Khatami (reformista, presidente do Irã de 1997 a 2005, que deve apoiar Hashemi na eleição) não é estúpido. Eles sabem que se derem à direita uma desculpa para parecer que 2009 vai se repetir, então, os conservadores podem tomar isso como uma oportunidade. Não querem dar aos conservadores oportunidade de acusá-los de liderar um movimento obscuro ou de um comportamento antirregime.

Isso representa uma mudança no movimento reformista?

No passado, os reformistas defendiam um candidato com uma visão 100% igual à deles. Era tudo ou nada. A situação teve de piorar muito para que os reformistas finalmente se tornassem pragmáticos. E acho que essa é uma forma mais madura e com mais chance de ser bem-sucedida de lidar com a política iraniana. Além disso, a coalizão de Hashemi inclui centristas e conservadores. Isso é inédito.

Existe ameaça real ao regime hoje?

A eleição passada foi bastante competitiva e isso aumentou a esperança por mudanças, por isso as pessoas foram às ruas, elas estavam otimistas com o processo eleitoral e muitos se chocaram com o resultado, que entenderam como fraudado. Isso está prestes a ocorrer de novo. Mas não se trata de depôr o regime. Os iranianos podem pensar muito nisso, mas não é uma questão para eles agora. Podem não ter exatamente o que querem, mas aprenderam a se engajar politicamente e conquistaram ao longo dos anos muitas liberdades ao resistir às regras com as quais não concordam.

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