Cornell Tukiri / The New York Times
Cornell Tukiri / The New York Times

Os relatos do terror vivido por sobreviventes do massacre nas mesquitas da Nova Zelândia

Abdul Aziz chegou a pegar uma arma sem munição deixada para trás pelo atirador e gritar para desviar a atenção dele de seus filhos e outros fiéis

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2019 | 16h05

CHRISTCHURCH, NOVA ZELÂNDIA - Quando os primeiros tiros soaram durante a oração de sexta-feira, Abdul Kadir Ababora se jogou no chão e se agachou sob uma prateleira cheia de alcorões. Fingiu-se de morto, convencido de que o assassino que cometeu um massacre em duas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia, chegaria a ele a qualquer momento. "Eu estava esperando a minha vez", disse Ababora.

Durante longos minutos, ele ouviu o extremista australiano Brenton Tarrant executar os fiéis reunidos na mesquita de Al-Noor. É difícil para ele explicar como ainda está vivo. "É um milagre", afirmou. "Quando abri os olhos, só havia cadáveres."

No total, 50 pessoas morreram nos ataques cometidos por Brenton Tarrant, de 28 anos, que se declara fascista e supremacista branco.

Como muitos fiéis que estavam na mesquita Al-Noor para a oração de sexta-feira, Ababora, de 48 anos, é um imigrante que chegou à Nova Zelândia em 2010, oriundo da Etiópia em busca de paz e prosperidade. O imã acabara de iniciar seu sermão quando os primeiros tiros foram ouvidos fora do templo, contou Ababora.

A primeira pessoa que ele viu cair foi um palestino. Um homem diplomado em engenharia, mas que, como ele, ganhava a vida ao volante de um táxi na cidade. "Ele foi ver o que estava acontecendo quando viu o assassino. Quando correu, recebeu um tiro", lembrou Ababora.

Foi então que Tarrant iniciou o massacre, matando os fiéis um por um. Ababora imediatamente se jogou no chão e se escondeu embaixo de uma estante onde os alcorões estavam guardados.

"Eu apenas fingi que estava morto. Ele começou a atirar aleatoriamente. Esvaziou seu primeiro pente e o trocou para recomeçar. Depois terminou o segundo pente e colocou um terceiro, voltando a disparar na outra sala também", descreveu.

"Eu esperava a minha vez. A cada dois tiros, dizia a mim mesmo: 'O próximo é para mim, a próxima bala é para mim' e perdi a esperança", contou. Então começou a orar em silêncio e a pensar em sua família.

Durante os minutos intermináveis que se seguiam, nenhum sobrevivente se atrevia a fazer barulho. Mas os gritos dos feridos, que não podiam suportar a dor, quebravam o silêncio. "Havia sangue por toda parte.”

Ele cambaleou para fora da mesquita, onde encontrou outro fiel - cujo filho é amigo de seu filho mais velho - no chão, com ferimentos em sua mandíbula, nas mãos e nas costas. Naquele momento, notou a presença de dois outros corpos, duas mulheres em uma poça de sangue.

Como a maioria dos habitantes, Ababora nunca teria imaginado que tal explosão de ódio fosse possível em Christchurch, em um país apresentado como um dos mais pacíficos do planeta. "A Nova Zelândia não é mais segura", afirmou ele.

Heroísmo

Quando Abdul Aziz, um refugiado afegão de 48 anos que adquiriu nacionalidade australiana, viu um homem com uma arma do lado de fora de sua mesquita em Christchurch, ele correu em direção ao agressor, tomando a primeira coisa que encontrou: uma máquina de cartão bancário.

"Você não tem muito tempo para pensar", disse ele. "Eu só queria salvar tantas vidas quanto possível, mesmo perdendo a minha."

Na sexta-feira, Abdul Aziz e seus quatro filhos oravam na mesquita quando ouviram tiros do lado de fora do edifício. O pai então correu para o exterior do prédio, pegando como "arma" uma máquina de cartão bancário que estava ao seu alcance.

Ele ficou surpreso ao se ver diante de um homem armado, vestindo farda militar. Aziz então jogou a máquina em sua direção e se abrigou entre os carros estacionados, enquanto o atirador soltava uma rajada de tiros contra ele.

Ele ouviu um de seus filhos gritar: "Pai, por favor, volte para dentro". Recusando-se a obedecer o filho, pegou uma arma sem munição deixada para trás pelo atirador e gritou "Venha aqui" muitas vezes para desviar a atenção de Tarrant de seus filhos e outros fiéis.

"Quando ele viu a arma em minhas mãos, eu não sei o que aconteceu, ele soltou a dele e eu o persegui com a minha. Consegui lançar a arma em seu carro e quebrar a janela, e vi que ele estava um pouco assustado.”

Abdul Aziz continuou a correr atrás do assassino que fugiu de carro. "Durante muito tempo não sabia se meus filhos estavam vivos, mortos ou feridos porque não podia entrar na mesquita", disse. Ele então descobriu que todos os seus filhos sobreviveram ao ataque. "Quando fecho os olhos, ainda vejo corpos por toda parte", afirmou ele, que perdeu dois amigos próximos no atentado. / AFP

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