Os republicanos e o Medicare

Disputa eleitoral nos EUA, em 2012, deve ser como todas as outras: quem for mais demagogo vencerá

David Brooks, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Em algum momento, democratas e republicanos devem examinar juntos se elevam o limite de endividamento dos EUA. No auge da discussão, o presidente Barack Obama deverá se dirigir ao país e dizer que, apesar de ter oferecido aos republicanos mais de US$ 1 trilhão em cortes, eles não quiseram um acordo. E, depois, anunciará que, mesmo sem um pacto, o país ainda terá recursos para pagar seus credores.

Infelizmente, dirá Obama, o governo não terá dinheiro para manter outros programas. As agências federais enviarão cartas avisando que, diante do impasse no Congresso, os empréstimos estudantis serão suspensos. Outras cartas serão dirigidas aos idosos, cortando benefícios sociais. A etapa seguinte será o pânico nacional.

Há algumas semanas, os republicanos seriam capazes de resistir a isso. Era possível afirmar que os americanos estão tão fartos das despesas descontroladas que apoiariam um partido valente o bastante para colocar o país numa base fiscal saudável. Mas, após a derrota republicana recente na eleição de uma vaga para a Câmara, ficou mais difícil afirmar isso. Agora, 2012 parece uma eleição comum e qualquer partido acusado de cortar subvenções será derrotado.

Muitos consultores já aconselham os republicanos a desistir da austeridade e partir para a ofensiva: acusar os democratas de apoiar o aborto. O governo acusará os republicanos de acabar com o Medicare. Quem for mais demagogo vencerá. No entanto, nos últimos dias, conversei com vários republicanos que não querem agir assim e acreditam que o país está em perigo. Eles querem achar uma maneira de reduzir a dívida sem cometer um suicídio político.

Esse é um processo de duas etapas. Primeiro, os republicanos têm de fazer uma grande proposta de elevar o endividamento. Essa oferta deve incluir um compromisso bipartidário para se reduzir os gastos do Medicare. Os republicanos precisarão dos democratas para controlar as dotações orçamentárias. Em troca, devem propor um aumento de impostos dos ricos. Eles têm de abandonar as deduções de juros sobre hipotecas de valor superior a US$ 500 mil e das relativas a um segundo imóvel.

Além disso, devem acabar com as lacunas na lei que favorecem as empresas e limitar a dedução do seguro saúde. Têm de propor ainda um plano que siga as linhas gerais do relatório Simpson-Bowles, que o Senado está elaborando. Os democratas poderão não concordar. Desde a eleição, eles entraram numa posição fiscal fetal, esperando não ofender ninguém. Nesta semana, eles debateram quatro propostas de orçamento e ninguém votou nada. Até o orçamento de Obama foi ignorado.

Os democratas não querem se manifestar publicamente a favor de qualquer decisão do governo que seja dolorosa. Além disso, Obama pode usar a ocasião para atacar os republicanos no âmbito do Medicare. Mas, se a oposição fizer uma proposta que inclua aumentos de receita, ao menos mostrará que está disposta a um acordo para impedir uma catástrofe. E os democratas poderiam aceitar.

Os republicanos precisam ser o partido da ordem, da estabilidade e do crescimento. Eles têm de expor os fatos, mostrando que o Medicare é instável e está a caminho de um colapso, como o republicano Paul Ryan está fazendo. Mas precisam também se envolver na reforma do Medicare, com um programa para criar comunidades sólidas.

O Boston Consulting Group prevê um renascimento da manufatura à medida que os salários na China subirem e os trabalhadores de Estados em que os custos são baixos, como Mississippi, descubram que podem competir novamente. Se os republicanos contribuírem para fomentar tudo isso, farão um bem para o país e poderão se sair bem politicamente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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