Os ricos ganharam uma

Decisão da Suprema Corte americana aumentará a influência de oligarcas na política

Gail Collins*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2014 | 02h04

Hoje, vamos discutir a decisão da Suprema Corte sobre doações políticas. De cara, incorremos num problema terrível, que é a dificuldade de ter uma conversa divertida sobre a lei de financiamento de campanha.

Vou tentar de novo: na quarta-feira, o presidente da Suprema Corte, John Roberts Jr., afirmou à nação que era inconstitucional dizer que uma pessoa rica só pode doar um total de US$ 123,2 mil para campanhas para o Congresso em cada ciclo eleitoral. Ele foi acompanhado pela maioria dos nove juízes. O resumo da ópera: os fundadores pretendiam que os EUA fossem um país no qual cada cidadão tivesse o direito inalienável de doar, por exemplo, US$ 3,6 milhões a cada dois anos.

Como você se sente a esse respeito, povo? De um lado, isso não pode ser um avanço útil. Por outro, já vivemos em um país onde bilionários gastaram quantias intermináveis de dinheiro tentando influenciar eleições com seus próprios grupos privados. O grupo dos irmãos Koch gastou mais de US$ 7 milhões em anúncios na Carolina do Norte contra a senadora democrata Kay Hagan - e ainda nem há um candidato republicano.

Quanto mais fundo poderemos ir? "Eles agora podem piorar ainda mais as coisas", previu Fred Wertheimer, o sofredor líder do Democracy 21, uma organização sem fins lucrativos que faz lobby por uma reforma do financiamento de campanhas.

Há uma grande diferença, ele afirma, entre um grupo independente que precisa ao menos fingir que não está associando sua mensagem com a de um partido e um cara rico simplesmente "procurar um líder no Congresso e dizer: 'Hoje vou lhe entregar um cheque de US$ 2,5 milhões, desde que saiba qual a sua posição sobre tal coisa'".

Wertheimer vem trabalhando nessa questão há muito tempo. "Comecei com a Common Cause (outra organização de lobby) em 1971 e fui encarregado de duas questões: reforma do financiamento de campanha e legislação para pôr fim à Guerra do Vietnã." Como sabem, a Guerra do Vietnã terminou. Ou seja, Werthemeier não vai desistir dessa questão. No entanto, e o restante da população?

A vastíssima maioria dos americanos acredita que deve haver algum tipo de teto à quantidade de dinheiro que os candidatos podem receber e gastar. Entretanto, ela geralmente não quer dominar os detalhes dos comitês independentes só para gastos. Já é bastante difícil ser um cidadão preocupado. Você precisa ser capaz de identificar o senador de seu Estado e dar uma opinião sobre o nível de financiamento das pré-escolas no orçamento municipal. Tudo tem limite.

O lado negativo da decisão é muito claro, a menos que você seja da opinião de que os EUA realmente precisam de mais poder para os plutocratas. No entanto, vamos tentar ser positivos por um minuto. Aí vão algumas vantagens de abrir a porta para contribuições de campanha maiores para ricos:

1) O juiz Roberts talvez estivesse tentando acumular algum crédito com a direita para poder oscilar para a esquerda sobre a regra sobre contracepção da reforma do sistema de saúde de Obama, que será discutida na Suprema Corte. OK, inventei esta.

2) O governo federal não "eliminará mais o direito de escolha de uma pessoa". Essa veio de Lincoln Brown, um apresentador de programa de rádio que entrevistou Shaun McCutcheon, o queixoso na ação que a Suprema Corte acaba de julgar. Isso se referiria ao direito de doar vários milhões de dólares diretamente à pessoa que está concorrendo a um cargo federal, não ao direito de uma mulher de controlar seu sistema reprodutivo. Mas talvez possa haver uma tendência.

A entrevista, aliás, está no site de McCutcheon, junto com o anúncio de que ele está escrevendo um livro sobre como ele fez história legal, que estará "pronto dentro de algumas semanas". Para o CEO de uma empresa de mineração de carvão do Alabama, o cara é um digitador rápido.

3) Mais conversa sobre oligarcas! Observando os eventos na Rússia e na Ucrânia, não se pode deixar de notar todos os oligarcas podres de rico com seus dedos em cada desdobramento político. É uma palavra útil, conotando tanto poder impressionante como um grupo que você não quer ter por perto.

Na antiga União Soviética, a elite rica obtinha seu poder dos políticos. Aqui, parece ocorrer o contrário. Mas, da próxima vez que o zilionário de cassinos Sheldon Adelson convidar pretendentes presidenciais republicanos para irem a Las Vegas, e eles se curvarem diante de seu trono, sintam-se livres para dizer que eles estavam apenas honrando um oligarca.

*Gail Collins é jornalista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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