Os riscos da nova projeção geopolítica do Japão na Ásia

Ascensão pode minar frágil equilíbrio que balanceia a disputa sino-americana

Gareth Evans, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2014 | 02h03

Neste momento em que os eventos históricos se sucedem de maneira mais acelerada do que podemos absorver, é fácil não prestarmos a devida atenção a acontecimentos recentes de possíveis consequências mais graves ainda para a paz e a estabilidade futuras do que os alarmantes fatos que se produzem no leste da Ucrânia, em Gaza, na Síria e no Iraque. O resultado das negociações com o Irã sobre a questão nuclear, a troca de liderança na Índia e na Indonésia - duas das três maiores democracias mundiais - e a nova carga de energia notada no grupo dos BRICS, formado por países não alinhados com os ocidentais (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) poderão mudar o jogo.

Mas a demonstração de força do Japão no âmbito internacional, sob o primeiro-ministro Shinzo Abe - que na semana passada visitou o Brasil - , tem talvez um significado bem mais importante. Se não for cuidadosamente administrada por todos os interessados, até mesmo pelos Estados Unidos e os outros aliados de Tóquio na região da Ásia-Pacífico, a transformação da política externa japonesa empreendida por Abe poderá minar o frágil equilíbrio de poder que até o momento permitiu controlar a rivalidade sino-americana.

O Japão tem razão em se preocupar com a nova afirmação regional da China. O fortalecimento das relações do Japão no Sudeste Asiático, e com a Austrália e Índia, é compreensível nesse contexto. Tampouco é irracional - apesar da oposição interna e externa - que o governo japonês procure reinterpretar o Artigo 9 de sua "Constituição da paz" a fim de permitir um envolvimento maior nas operações coletivas de autodefesa e a cooperação militar com aliados e parceiros.

Mas os riscos de tudo isso devem ser abertamente reconhecidos. A oposição a um eventual renascimento do militarismo japonês é visceral no nordeste da Ásia. Abe é um nacionalista extremamente conservador, e ainda reluta em aceitar a responsabilidade do Japão na 2.º Guerra (mesmo admitindo, como fez recentemente na Austrália, "os horrores da história do século passado" e oferecendo suas condolências pelas "inúmeras almas que perderam suas vidas").

Sua recusa a excluir futuras visitas ao Santuário Yasukuni, ao lado do Museu Yushukan que glorifica heróis da guerra, alimenta um ceticismo intransigente na China. Também faz com que seja mais difícil sua causa comum com a Coreia do Sul, e eleva o risco de que as disputas territoriais marítimas se tornem mais explosivas.

Menos notados, mas possivelmente mais importantes no longo prazo, foram os esforços do Japão para modificar acordos regionais sobre segurança, que por muitos anos se distinguiram por três elementos fundamentais.

Primeiro, as várias alianças dos EUA com Japão, Coreia do Sul, e Austrália (e menos estreitas com Cingapura, Tailândia e Filipinas). A China aceita e compreende essas alianças, ou mesmo as aprecia. Em segundo lugar, há iniciativas para que sejam adotadas defesas naturais, encorajadas pelos EUA, cada vez mais voltadas para uma maior autossuficiência, caso a ascensão da China se torne uma ameaça militar.

Isso também tem sido aceito com calma razoável, embora nem sempre sem alarde, pela China, e não comprometeu a constante ampliação das relações econômicas que todo país da região mantém com Pequim.

Finalmente, houve diálogos multilaterais sobre segurança - o mais importante deles, o Fórum Regional da Asean (Associação das Nações do Sudeste Asiático) em novembro de 2011 - com a finalidade de aumentar a confiança, a prevenção e a gestão de conflitos. Até o momento, as promessas representadas por tais mecanismos não se cumpriram totalmente, embora não por falta de constantes esforços para emprestar-lhes um sentido maior.

Apesar da enorme importância dada ao "pivô" dos Estados Unidos na Ásia - anunciado pelo presidente Barack Obama no Parlamento australiano em novembro de 2011 - os delicados equilíbrios exigidos por essa arquitetura pouco mudaram nas últimas décadas. Agora, o Japão, com o apoio declarado da Austrália em particular, parece determinado em mudar tal equilíbrio criando, como contrapeso à China, uma relação muito mais densa do tipo de uma aliança com parceiros seletos.

No início de julho, Abe falou reiteradamente no Parlamento australiano de um "novo relacionamento especial" com a Austrália - terminologia em geral associada apenas às alianças mais sólidas - e em seguida assinou um acordo de transferência de equipamento e tecnologia para a defesa.

Ainda não vimos nenhuma tentativa de restabelecer o Diálogo Quadrilateral sobre Segurança, entre Japão, Austrália, EUA e Índia, que realizou exercícios militares em 2007 considerados pela China um ato hostil de isolamento. Mas não é difícil imaginar que isso deva constar da lista de Abe.

Por outro lado, não deveriam exagerar os riscos. Dada a concorrência estratégica entre os EUA e a China, ainda que tratada de maneira delicada, e com os interesses econômicos da Austrália, do Japão, e de muitos outros países da região que se relacionam de maneira igualmente estreita com a China por seus interesses na área da segurança, e com os EUA, o surgimento de algum tipo de perturbação na atual situação implicaria graves riscos.

Países como a Austrália deveriam adotar uma posição clara quando a China extrapola externamente, como aconteceu no Mar do Sul da China com sua indefensável "linha de demarcação" geográfica (em relação às Ilhas Spratley, disputadas por vários países da região), alegando direitos históricos sem nenhuma justificativa em termos do direito internacional. O mesmo se aplica quando a China não se comporta como boa cidadã internacional no Conselho de Segurança da ONU, ou quando comete graves violações dos direitos humanos.

Devemos ser cautelosos e nos limitarmos a tomar posições em lugar de tomar partido na região, seguindo a norma adotada há décadas. Na China, assim como em outros países, está havendo um profundo conflito interno entre os defensores da linha dura e os da linha mais branda. Na medida em que a questão é justamente esta, será uma política inteligente para todos os países da região falarem e agirem de uma maneira que ajude as pombas e não encoraje os falcões. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-CHANCELER DA AUSTRÁLIA (1988-1996) E PRESIDENTE DO INTERNATIONAL CRISIS GROUP (2000-2009), ATUALMENTE É REITOR DA UNIVERSIDADE NACIONAL AUSTRALIANA

Tudo o que sabemos sobre:
Gareth Evans, Project Syndicate

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.