Os riscos de uma ação na Síria

Apesar das advertências dos EUA, a conclusão de analistas é a de que uma intervenção complicaria a situação no país

STEVEN LEE MYERS & SCOTT SHANE, THE NEW YORK TIMES, SÃO JORNALISTAS, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h06

A pesar da advertência feita pelo presidente Barack Obama à Síria, para que não use seu arsenal de armas químicas ou permita que elas caiam nas mãos de extremistas, as opções do governo americano continuam limitadas, segundo um simples cálculo das autoridades: se houver intervenção, o conflito pode se agravar ainda mais.

As operações militares americanas contra a Síria provocariam um envolvimento muito maior dos aliados da Síria, principalmente Irã e Rússia. E permitiriam que o presidente da Síria, Bashar Assad, reacendesse o sentimento popular contra o Ocidente e incentivasse a Al-Qaeda e outros grupos terroristas que lutam contra o governo a concentrar suas atenções no que consideram mais uma cruzada dos EUA no mundo árabe.

O vice-primeiro-ministro da Síria, Qadri Jamil, frisou isso em Moscou, menosprezando a advertência de Obama e declarando que toda intervenção militar externa levará a "um confronto que se estenderá além das fronteiras da Síria".

Ao mesmo tempo, as palavras de Obama ressaltaram o fato de que a relutância dos EUA em intervir poderá chegar ao seu limite. Isto, porém, representa uma ameaça maior aos interesses e valores americanos do que uma guerra civil na Síria: um ataque com armas químicas ou a transferência dessas armas para inimigos declarados dos EUA e seus aliados, incluindo Israel.

A chancelaria síria prometeu, no fim de julho, que seus estoques de armas químicas seriam usados somente contra uma intervenção externa e, em hipótese alguma, contra o povo ou civis sírios durante a crise. Alguns especialistas e parlamentares instaram o governo americano a ir mais longe, incluindo alguns importantes membros do Congresso, como o senador John McCain, que já pediu ampliação do serviço de inteligência americano e ajuda para criar "zonas seguras" nas áreas sob o controle dos rebeldes.

A Casa Branca está sendo pouco pressionada pelo público ou pelos políticos a intervir de maneira mais enérgica, mesmo que haja um aumento do derramamento de sangue.

McCain criticou o que considerava uma política excessivamente cautelosa do governo Obama em relação à Líbia, que levou a uma intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). As autoridades americanas afirmaram que o conflito na Síria transformou-se em algo muito mais complexo do que o que ocorreu na Líbia.

O notório ditador líbio, Muamar Kadafi, não dispunha de efetivo militar nem de apoio internacional e o conflito apresentava muito menos riscos de a luta étnica e sectária espalhar-se para vizinhos como os da Síria: Líbano, Jordânia, Iraque, Turquia e Israel.

Caso líbio. Por enquanto, os obstáculos legais e diplomáticos à intervenção continuam intransponíveis. Em grande parte em razão da intervenção na Líbia, Rússia e China prometeram bloquear a autorização da ONU que poderia levar a um envolvimento militar internacional, o que, insistem os aliados europeus, da Grã-Bretanha à Turquia, constitui-se um pré-requisito para a intervenção internacional.

No Pentágono, os comandantes continuam traçando planos para possíveis operações - desde o estabelecimento de uma zona de exclusão de voos, como na Líbia, até o envio de forças especiais para neutralizar as armas não convencionais da Síria, caso fossem utilizadas ou retiradas do controle do governo sírio. Representantes do Pentágono indicaram que a pior das hipóteses exigiria dezenas de milhares de soldados - algo que, segundo as autoridades, atearia fogo à região já conturbada.

Obama não ameaçou explicitamente com uma resposta militar no caso de um ataque com armas químicas, embora tenha definido essa possibilidade como um extremo limite que "modificaria seus cálculos" no que se refere à resposta dos EUA até agora. Um ataque desse tipo, disseram as autoridades, também modificaria a disposição das outras nações, incluindo a Rússia, e aumentaria as chances de uma reação internacional.

A atual estratégia oficial envolve a intensificação da pressão diplomática e econômica sobre o governo de Assad mediante sanções, a oferta de assistência humanitária aos sírios dentro e fora do país e o fornecimento aos adversários de Assad de uma ajuda "não letal", incluindo, mais recentemente, integrantes do Exército Sírio Livre. A ajuda financia equipamentos de comunicação que permitem à oposição armada e não armada coordenar melhor seus ataques e planos para a tomada do poder.

O governo americano excluiu também o fornecimento de armas aos rebeldes pela mesma razão: mais armas, dizem as autoridades, provavelmente contribuiriam para agravar ainda mais a guerra.

Por exemplo, alguns rebeldes pediram lançadores de foguetes usados em defesa antiaérea, que, segundo os especialistas, poderiam fazer uma grande diferença nos combates, revidando os ataques dos caças e dos helicópteros do governo. As autoridades destacam a experiência no Afeganistão nos anos 80, quando a CIA forneceu mísseis Stinger aos mujahedin que lutavam contra a União Soviética. Mais tarde, gastou milhões de dólares na tentativa de localizá-los depois que os soviéticos foram embora do país e os grupos da oposição formaram o Taleban.

"A complexidade da Síria, hoje, faz a situação no Afeganistão, nos anos 80, parecer muito simples", disse Milton Bearden, um dos supervisores do apoio clandestino da CIA aos combatentes afegãos naquela época.

Transição política. Quem é a oposição síria? Para quem iriam essas armas? O risco de não fazer mais do que estão fazendo poderia causar a perda do apoio aos EUA daqueles que esperam derrubar Assad - em contraposição aos novos líderes da Líbia, que agora veem os americanos de uma maneira favorável. Existe também o argumento moral de que os EUA e a Otan intervieram na Líbia porque foi fácil, mas não pretendem fazer o mesmo na Síria, porque a situação é mais difícil.

Embora alguns representantes do governo manifestem reservadamente sua frustração pelo fato de o conflito agravar-se e escapar do controle, eles afirmam que isso só enfatiza o perigo de serem empurrados para um conflito regional maior e até mesmo internacional.

"A oposição precisará desesperadamente de armas, se não quisermos que esse conflito evolua para uma catástrofe, como aliás indica agora sua trajetória", disse Andrew J. Tabler, especialista em questões da Síria do Instituto de Políticas para o Oriente Médio do Washington Institute, em entrevista por telefone de Beirute.

"Se você não optar por intervir, precisará dotar os seus integrantes da capacidade de acabar com esse conflito por conta própria."

O governo americano afirma que está fazendo o que pode para acelerar o fim do regime de Assad, enquanto o Pentágono e o Departamento de Estado preparam a transição política que se seguirá, procurando soluções para questões como a segurança do arsenal químico da Síria. Também estão em andamento outras operações sigilosas, embora não se saiba ao certo qual será o seu alcance. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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