Os riscos que permeiam uma intervenção na Síria

Segundo autoridades do Pentágono, uma ofensiva demandaria semanas de bombardeios dos EUA com o potencial de matar um grande número de inocentes e iniciar uma guerra civil

É JORNALISTA, ESCRITORA, ELISABETH, BUMILLER, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, ESCRITORA, ELISABETH, BUMILLER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2012 | 03h03

Apesar dos crescentes apelos dos EUA na tentativa de conter o derramamento de sangue na Síria, funcionários de alto escalão do Pentágono estão reforçando suas advertências de que uma intervenção militar seria uma operação temerária e demorada, requerendo semanas de ataques aéreos exclusivamente americanos, com o potencial de matar grande quantidade de civis e deixar o país mais perto de uma guerra civil. Eles dizem que a Síria apresenta um problema muito maior que a Líbia, que exigiu uma campanha aérea de sete meses da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no ano passado, na qual centenas de aviões despejaram e dispararam 7.700 bombas e mísseis.

Embora os EUA tenham a capacidade militar de lançar ataques aéreos contínuos na Síria, autoridades do Pentágono dizem que estão preocupadas com quatro desafios: o risco de atacar as defesas aéreas abundantes e sofisticadas de fabricação russa da Síria, localizadas perto de grandes centros populacionais; armar uma oposição síria profundamente dividida; começar uma guerra por tabela com Rússia ou Irã, dois aliados cruciais da Síria; e a falta, ao menos até agora, de uma coalizão internacional disposta a agir contra o governo do presidente Bashar Assad.

Uma autoridade do Pentágono disse no fim de semana que mesmo a criação de "refúgios", ou áreas protegidas para civis, em território sírio seria uma operação tão complexa que os planejadores militares estavam "considerando um contingente importante de tropas terrestres americanas" para ajudar a estabelecê-los e mantê-los, caso os EUA adotem esse modelo de ação.

O planejamento de opções militares está sendo feito a pedido do presidente Barack Obama, apesar de o governo ainda acreditar que pressões diplomáticas e econômicas são a melhor maneira de conter a violenta repressão do governo Assad. As opções em consideração incluem o transporte aéreo de cargas humanitárias, monitoramento naval da Síria e o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea, entre outras possibilidades.

Na semana passada, o general Martin Dempsey e o secretário de Defesa, Leon Panetta, disseram que o estudo de possibilidades estava somente nos primeiros estágios.

O senador John McCain, do Arizona, e alguns de seus colegas republicanos continuam dizendo que os EUA têm a responsabilidade de se envolver na rebelião síria. "Quantos mais terão de morrer?", questionou McCain durante uma audiência do Senado na semana passada, referindo-se às 8.500 pessoas mortas em menos de um ano na Síria, segundo estimativas da ONU.

O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, disse numa entrevista que os EUA têm interesses muito mais estratégicos na Síria do que tinham na Líbia e os riscos de uma ação militar seriam aceitáveis.

Nova guerra. McCain, um piloto da reserva da Marinha que foi abatido e capturado durante a Guerra do Vietnã e disputou a presidência com Obama em 2008, irritou particularmente os planejadores militares que consideraram emocionais e aventureiros os comentários sobre a entrada em uma nova guerra. Os planejadores dizem que também precisam de mais direção de Washington sobre os objetivos do governo e o resultado final na Síria.

Autoridades da Defesa e da inteligência dizem que a defesa aérea integrada da Síria - uma combinação de milhares de mísseis terra-ar, radares e canhões antiaéreos - é não só mais avançada do que a da Líbia como também está montada em áreas densamente povoadas na fronteira ocidental do país, significando com isso que, mesmo com bombardeios de precisão, provavelmente morreriam civis nas áreas próximas.

Como na Líbia, os primeiros estágios de uma campanha aérea na Síria seriam quase totalmente americanos em razão das capacidades eletrônicas e de arsenal dos EUA e provavelmente demandariam, como disse o general Dempsey, "um prolongado período e um grande número de aeronaves".

Tão logo os EUA tivessem o domínio aéreo, seria possível criar refúgios ou "corredores humanitários" - uma rota de saída segura para refugiados para, por exemplo, a Turquia -, mas oficiais militares dizem que o corredor e os refúgios seriam vulneráveis a ataques do Exército sírio, de 330 mil homens.

Oficiais militares dizem que a oposição não controla nenhuma área da Síria, diferentemente da Líbia, onde, como disse o general Dempsey, "tínhamos forças tribais no leste e no oeste avançando sobre o centro". Autoridades militares e da inteligência dizem que a oposição a Assad continua dividida, formada por até cem grupos e por enquanto não surgiram líderes claros. Autoridades americanas estão analisando a possibilidade de oferecer à oposição um conjunto de assistência técnica, incluindo equipamentos de comunicação, mas ainda não conseguiram reunir os grupos num conselho coeso.

Uma grande preocupação do Pentágono é o Irã, o aliado mais importante da Síria. Fontes militares e da inteligência dizem que o Irã enviou recentemente à Síria armas leves, principalmente granadas propelidas por foguetes, além de equipamento tecnológico e especialistas para ajudar o governo Assad a interromper comunicações de redes sociais e da internet.

Ao mesmo tempo, a Rússia é uma importante fornecedora de armas para a Síria e mantém uma base naval na cidade síria de Tartus, na costa mediterrânea. Moscou pressionou muito nas últimas semanas para preservar sua relação com Assad, mais especialmente vetando, com a China, uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que pedia Assad que renunciasse.

Funcionários do governo dizem que continuam preocupados com as armas químicas e biológicas da Síria, que estariam entre os maiores estoques do mundo. "Não estou assegurando que, se forem deixadas em condições inseguras, automaticamente alguém poderá se apoderar delas e usá-las", disse o general James Mattis. "Mas elas poderão terminar se queimando sozinhas. Eu penso que deverá haver um esforço internacional quando Assad cair, e ele cairá, para garantir a segurança dessas armas." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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