Os russos estão chegando... a Cabul

Enquanto prossegue a caça a Bin Laden e ao mulá Omar, com sua série de boatos, desinformação e dificuldades, coisas sérias continuam a acontecer em Cabul, no Afeganistão. Os chefes afegãos, em sua maioria antitalebans, recrutados sobretudo entre os generais da Aliança do Norte, tentam construir um aparelho de Estado confiável. Ao mesmo tempo, forças estrangeiras avançam seus peões como num tabuleiro de xadrez. Um país está em evidência: a Rússia foi o primeiro Estado a abrir sua embaixada em Cabul e a enviar rapidamente uma delegação russa governamental. Esse duplo gesto surpreende um pouco: na verdade, Moscou não fez um grande esforço guerreiro para caçar os talebans, tendo sido esse esforço realizado integralmente pelos Estados Unidos (e secundariamente pela Inglaterra). É verdade que, há muito tempo, a Rússia tinha relações muito calorosas com os chefes da Aliança do Norte, que sabiam, antes de todo o mundo que seriam, um dia, os novos dirigentes de Cabul. Ironia da situação: há doze anos, os soldados soviéticos, abatidos pelos franco-atiradores afegãos, detestados e desprezados por seus vencedores, saíram humilhados do país que tinham sonhado conquistar. Ora, eis que eles se reinstalam brilhantemente nesse país. E não por terem contribuído para o fracasso dos talebans, mas graças às bombas americanas. Enfim, um último paradoxo: os ?enviados especiais? dos russos foram, neste ano, muito mais bem recebidos pelos afegãos do que os soldados britânicos. O Kremlin mobilizou grandes meios técnicos e financeiros para sua ?volta a Cabul?: ali chegaram quatrocentos funcionários russos. Ali funciona um hospital russo. Centenas de toneladas de ajuda alimentar foram despejadas na capital. A ajuda humanitária russa foi posta sob a autoridade de um ex-membro da KGB (como Putin), Valeri Vostrotine, que conhece bem a região, pois em 1970 conduziu uma unidade soviética de elite no ataque ao Palácio de Hafizullah Amine, onde provocou uma carnificina. O interesse russo tem muitos motivos: principalmente uma oportunidade de ganhar a confiança do novo ?aliado? americano e de se firmar numa região que é o centro e a chave de toda a Ásia longínqua. Uns pensam também na droga: a enorme produção afegã, que foi retomada (primeiro fornecedor mundial), em princípio, é evacuada pelo Tadjiquistão, país limítrofe, república independente, mas na verdade ?Estado-satélite? da Rússia. É pelo Tadjiquistão que a droga afegã sai e sem que os onze mil guardas de fronteiras russas que fazem a vigilância da região causem o menor problema. É preciso acrescentar que os odores de petróleo também são fortes. Não que o Afeganistão produza petróleo. Mas há gigantescos poços de petróleo nas repúblicas muçulmanas ex-soviéticas da região (zona do Mar Cáspio) muito ligadas a Moscou. Prevê-se que a zona do Mar Cáspio será futuramente uma nova Arábia Saudita. Ora, para escoar todo esse petróleo para o Sudeste Asiático, os futuros oleodutos deverão obrigatoriamente passar pelo Afeganistão, que ocupa essa posição de ?chave? de toda a Ásia longínqua. A diplomacia russa já está envolvida no caso. Observemos que o novo ministro afegão da Defesa Nacional, Muhammad Fahim, pertencia à contra-espionagem afegã, contra-espionagem que foi formada, na época, pela KGB soviética. Decididamente, a ex-KGB ainda se mexe. Leia o especial

Agencia Estado,

04 Janeiro 2002 | 17h51

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.