Os russos estão chegando

Dez razões para não acreditar em Putin quando ele diz que não vai invadir a Ucrânia oriental

Michael Weiss*, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2014 | 02h05

Recentemente, circularam notícias de que o presidente russo, Vladimir Putin, tinha telefonado para o presidente americano, Barack Obama, para discutir a possibilidade de uma solução diplomática para a crise na Crimeia. Os dois concordaram em mandar enviados especiais para discutir detalhes sobre como desarmar a situação. Mas, embora um acordo possa ser uma possibilidade, avaliações dos EUA e da Otan concordam em que a probabilidade de tropas russas cruzarem a fronteira para o leste (e possivelmente o norte e o sul) da Ucrânia cresce. Trata-se então de mais um surto de Putin? Pode ser. Eis dez fatos que contribuem para uma chance muito real de a Rússia invadir a Ucrânia.

1. O porte dos movimentos de tropas e os hospitais de campanha

A Rússia já deslocou até 50 mil soldados para vários pontos ao longo da fronteira ucraniana, incluindo a Crimeia. Os russos também posicionaram suprimentos de alimentos, remédios e peças para equipamentos militares , que não seriam necessários em algum "exercício de primavera". Um hospital de campanha foi erguido na região de Bryansk, conforme relatou a Voz da América, a meros 19 quilômetros da fronteira oriental ucraniana.

2. Putin gosta de envergonhar os EUA, e, em especial, Obama

Em fevereiro, Obama advertiu que "haverá custos para qualquer intervenção militar na Ucrânia" - antes de sair correndo para um coquetel do Comitê Nacional Democrata. No dia seguinte, o mundo acordou com uma invasão russa da Crimeia.

E não custa olhar para a lista de desejos e advertências americanas que o Kremlin tem ignorado. A Rússia aumentou remessas de armas à Síria desde o acordo de desarmamento químico. Moscou continua dando abrigo ao ex-espião Edward Snowden.

3. O salvamento do FMI

O pacote de ajuda do FMI à Ucrânia totaliza US$ 18 bilhões a serem emprestados em dois anos - e aos quais serão acrescidos os US$ 14 bilhões já prometidos a Kiev por outros credores internacionais, como EUA e União Europeia. É uma quantia respeitável para ajudar a tirar o país da crise profunda.

Putin foi excluído de seu papel de uma década como vilão do caro e volátil setor de gás da Ucrânia. Ele certamente teria preferido o colapso total das instituições estatais ucranianas e de sua economia de mercado a uma estabilidade facilitada pelo FMI.

4. Putin viu com que confiabilidade o establishment político americano fez seu trabalho por ele

O presidente russo deve ter regozijado quando a ex-diretora de Planejamento Político do Departamento de Estado americano Anne-Marie Slaughter publicou um artigo de opinião no Washington Post argumentando, entre outras coisas, que a anexação da Crimeia era legal e moralmente equivalente à intervenção da Otan em Kosovo. Essa equivalência é exatamente o que a propaganda do Kremlin tem sustentado.

5. Bem, falando sério, o que vamos fazer a esse respeito?

Enquanto veículos blindados para transporte de pessoal e paraquedistas se posicionavam, a porta-voz de John Kerry, Jennifer Psaki, tuitava o seguinte: "Observando enorme mobilização militar russa em fronteiras da #Ucrânia: perigosa intimidação de #RússiaIsolada". Isso vai lhes ensinar. Será que o governo americano não vê a futilidade de acusar Putin de jogar segundo as regras do século 19 usando mídia do século 21 que ele está tentando censurar, bloquear ou mesmo fechar?

Aliás, ninguém em nenhum nível sério do governo americano ou da Otan está considerando uma resposta militar a uma invasão do território ucraniano e ao desmembramento de um país europeu. E Putin sabe disso. Não há nem sequer um blefe para ele pagar para ver.

6. Ouçam o que funcionários do Kremlin estão dizendo

Enquanto a Assembleia-Geral das Nações Unidas votava para reafirmar a integridade territorial e soberania da Ucrânia, o embaixador russo naquele organismo, Vitali Churkin, acusava a embaixada americana em Kiev de abrigar os verdadeiros atiradores de elite que atingiram manifestantes.

Anteriormente, o propagandista mor Dmitri Kiselyov recorreu às ondas aéreas de sua central de desinformação, Rossiya Segodnya, para lembrar aos espectadores: "A Rússia é o único país do mundo realmente capaz de transformar os EUA em cinza radioativa".

7. Militares e comércio de armas da Rússia dependem da Ucrânia

No fim de fevereiro, surgiu uma reportagem pouco notada em Sovershenno Sekretno, uma revista com sede em Moscou, assinada por Vladimir Voronov, sustentando que, ao contrário do saber convencional que os militares da Ucrânia dependem da Rússia, a situação é de fato o inverso: "É difícil superestimar o significado da Motor Sich para nossa aviação ao menos porque seus motores são usados em todos os nossos helicópteros, incluindo os de combate", escreveu Voronov, referindo-se à companhia de motores de avião da Ucrânia.

Odessa abriga as companhias de navegação que manejam a logística dos despachos de armas, particularmente pela estatal russa Rosoboronexport, que controla 80% das exportações de armas do país. Com um novo governo pró-americano e pró-europeu reunido hoje em Kiev, quem realmente acredita que Putin permitirá que sua rede de Odessa seja paralisada ou cancelada?

8. O Kremlin mente vergonhosa e grotescamente

Putin insiste até hoje em que Bashar Assad não despejou gás venenoso na capital da Síria em agosto. Putin também insistiu que não havia uma presença militar russa na Crimeia. Que milícias de "autodefesa" pró-Rússia - "homenzinhos verdes", como os ucranianos os chamam - assumiram de alguma forma o controle estratégico total da península europeia do tamanho do País de Gales, equipada com brinquedos como o rifle de precisão VSS Vintorez, que só é entregue a unidades de elite das forças militares russas.

Portanto, pesem esse histórico de descarada falsidade contra as garantias dadas pelo ministro russo da Defesa, Serguei Shoigu, de que a Rússia não tem planos para invadir.

9. Kombinatsiyais está muito em evidência agora

Esse conceito pouco empregado, mas ainda relevante, foi definido por Vasili Mitrokhin, ex-arquivista sênior da Diretoria de Inteligência Externa da KGB, no Manual dos Agentes da Inteligência Soviética, como: "Combinações operacionais para criar as condições certas para realizar medidas abertas para bloquear atividade subversiva inimiga - pegar o inimigo em flagrante, descobrir "por acaso" pessoas que podem ser questionadas como testemunhas de atividade subversiva".

Kombinatsiya significa também disseminar desinformação, recrutar agentes, "plantá-los" no inimigo, criar condições para o uso efetivo de equipamentos de operações técnicas, etc. Dizer que neonazistas homossexuais financiados pelos EUA estão governando a Ucrânia é manobra de entrelaçamento.

10. Modernizatsiya não é apenas para exibir

Shoigu está no cargo há pouco mais de um ano e já é considerado, por pesquisas, o ministro "mais eficiente" do gabinete. Shoigu supervisionou o maior e mais ambicioso programa de rearmamento e modernização das forças militares russas desde a queda da União Soviética.

As Forças Armadas não estão sendo reformadas, ampliadas e melhor equipadas para fins de exibição; estão sendo levadas para um teste.

Não é um bom augúrio, tampouco, que a conversa telefônica de Putin com Obama tenha enfatizado a "agitação de extremistas" em Kiev e além - ou o "bloqueio" da Transdnístria. Ambos são claramente pretextos à espera da invasão da Ucrânia pela Rússia.

*Michael Weiss é editor-chefe do site The Interpreter.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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