Os símbolos de Obama em Israel

Casa Branca decidiu que ele visitará a Igreja da Natividade, mas não o Muro das Lamentações nem a Mesquita de Al-Aqsa

É JORNALISTA, MARK, LANDLER, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, MARK, LANDLER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h04

O presidente Barack Obama planeja visitar a Igreja da Natividade, mas não o Muro das Lamentações na sua viagem a Israel nesta semana. Ele proferirá um discurso no Centro de Convenções de Jerusalém, mas não irá à Knesset (Parlamento israelense). E inspecionará uma bateria antimísseis, mas não em campo, onde elas protegem Israel contra foguetes disparados pelo inimigo.

Estas e uma série de outras decisões sobre o cronograma de viagem foram tomadas pela Casa Branca, orquestrando cada minuto da primeira visita de Obama a Israel como presidente. Mas, antes mesmo de partir, o presidente se defronta com o fato de que, num país tão carregado de simbolismos, qualquer local que decidir, ou não, visitar, pode causar um grande impacto.

As autoridades israelenses já expressaram uma certa frustração com o fato de Obama não visitar a Knesset, e especialistas em assuntos do Oriente Médio questionam como ele pode visitar a Igreja da Natividade, um dos locais mais sagrados da Cristandade, sem fazer uma parada no Muro das Lamentações, local sagrado para os judeus, ou na Mesquita de Al-Aqsa, sagrada para os muçulmanos.

"Qualquer visita presidencial a Israel é muito delicada, pois em Jerusalém convivem três religiões e tudo que se relaciona à Terra Sagrada é altamente simbólico e comumente contestado", afirmou Martin Indyk, ex-embaixador dos EUA em Israel.

O simbolismo é ainda mais crucial nesta viagem porque a Casa Branca descarta qualquer possibilidade de Obama levar na bagagem uma nova proposta para retomada das conversações de paz entre israelenses e palestinos.

Na falta de algo substancial, a ótica da visita presidencial torna-se ainda mais importante. Como ocorre com qualquer viagem presidencial, o itinerário de Obama é produto de negociações exaustivas entre a Casa Branca e o governo que o acolherá. Como a visita será breve - o presidente ficará em Israel apenas 48 horas - e em razão das rigorosas medidas de segurança, algumas ideias foram rejeitadas.

Indyk, hoje diretor da área de política externa na Brookings Institution, tem experiência pessoal com as armadilhas envolvidas numa visita presidencial a Israel. Em 1996, ele participou dos preparativos para uma visita a Israel do então presidente Bill Clinton, que estava ávido para visitar todos os três locais religiosos. O desejo de Clinton foi frustrado quando o ex-premiê Ehud Olmert, na época prefeito de Jerusalém, insistiu em acompanhá-lo à Mesquita de Al-Aqsa. O que foi vetado pelas autoridades palestinas que administram a mesquita e Clinton, então, cancelou as três visitas.

A Casa Branca ainda não anunciou o programa de viagem de Obama, embora detalhes a respeito tenham sido publicados pelo jornal israelense Haaretz, com base em informações que foram vazadas por autoridades do país. Embora a Casa Branca não tenha anunciado seus planos, um funcionário do alto escalão do governo disse que o Muro das Lamentações, que Obama visitou em sua viagem a Israel durante a campanha de 2008, não seria possível por causa da forte segurança que isso implicaria.

Quanto à Igreja da Natividade, a visita é apropriada, pois a basílica, que data de 327 d.C. e se acredita ser a mais antiga igreja cristã do mundo ainda ativa, tem um profundo significado para milhões de cristãos. E ela simboliza os direitos das minorias cristãs no mundo árabe, afirmou. A geografia também é importante: a Igreja está em Belém, na Cisjordânia controlada pelos palestinos. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, muito provavelmente receberá Obama.

"Esta visita provoca um sentimento de paridade para os palestinos", disse Ghaith al-Omari, diretor executivo da Força-tarefa americana na Palestina. "Ela adiciona à visita um componente cultural, mais do que algumas reuniões a portas fechadas com a Autoridade Palestina em Ramallah."

Para os israelenses, há muita coisa a apreciar no itinerário de Obama. Além de Yad Vashem, o memorial do Holocausto, parada obrigatória para todo chefe de Estado em visita ao país, o presidente colocará uma coroa de flores no túmulo de Theodor Herzl, escritor considerado o pai do sionismo moderno. Ele também visitará o Museu de Israel, onde verá os Manuscritos do Mar Morto, coleção de textos hebraicos que simbolizam o antigo elo entre o povo judeu e a terra de Israel.

A Casa Branca decidiu que Obama proferirá o principal discurso da sua visita no Centro de Convenções de Jerusalém e não na Knesset. Segundo um funcionário, isso reflete o interesse do presidente em chegar aos israelenses mais jovens, ao passo que, em razão da reputação dos parlamentares israelenses, as autoridades de Israel disseram que a Casa Branca também mostrou preocupação de que Obama possa ser acossado com perguntas.

O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, disse que pretende mostrar a Obama um "país diferente" - um país incubador de alta tecnologia e não um campo minado político. Mas a proposta feita para o presidente visitar o Instituto Israelense de Tecnologia foi recusada, pois exigiria uma alteração no programa para ele ir à cidade costeira de Haifa.

O ponto central da mensagem de Obama aos israelenses será no sentido de que ele apoia Israel tanto nos seus confrontos com vizinhos hostis quanto com o Irã. O que tornará a inspeção do sistema antimísseis, construído em Israel com apoio financeiro americano, um outro momento simbólico da visita.

As autoridades israelenses desejavam que Obama visitasse o sistema antimísseis em uma colina que dá vista para Tel-Aviv. Mas a Casa Branca rejeitou a ideia, citando falta de tempo. Em vez disso, a bateria será levada ao Aeroporto Ben Gurion, onde Obama a poderá inspecionar quando chegar.

O embaixador de Israel nos EUA, Michael B. Oren, disse estar muito satisfeito com a maneira como a viagem foi programada. Com a visita de Obama antes da Páscoa, Oren não resistiu em comparar a viagem toda a um Seder (jantar festivo da Páscoa).

"Tudo à mesa no Seder está repleto de simbolismo", afirmou. "É a mesma coisa também com relação a todos os pontos que constam do itinerário do presidente." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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