Os temores do Irã diante dos levantes árabes

Líder supremo elogia movimentos revolucionários, mas adverte que Israel e EUA podem tentar tirar proveito da situação

Rick Gladstone, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES - Na quarta-feira, o líder supremo do Irã advertiu o Ocidente e Israel a não tentarem se aproveitar das revoluções antigovernamentais que estão convulsionando o mundo árabe-muçulmano. O alerta, feito durante um discurso transmitido em rede nacional de TV, parece refletir a inquietação de Teerã com os acontecimentos nos países vizinhos, particularmente a Síria.     O discurso do aiatolá Ali Khamenei na Universidade de Teerã, para comemorar o feriado muçulmano de Eid al-Fitr, foi qualificado pela mídia estatal como um tributo aos movimentos revolucionários, que estão levando as populações muçulmanas a redescobrir "sua autêntica identidade islâmica".

Mas também foi uma advertência, indicando que os líderes iranianos temem perder sua influência na região enquanto os movimentos revolucionários avançam. "Os acontecimentos no Egito, Tunísia, Iêmen, Líbia, Bahrein e alguns outros países são decisivos para o destino das nações muçulmanas", disse o aiatolá. "Contudo, se os poderes hegemônicos e imperialistas e o sionismo, incluindo o regime despótico e tirânico dos Estados Unidos, tentarem usar as condições atuais para tirar proveito, o mundo islâmico com certeza se defrontará com grandes problemas por dezenas de anos."

Ambivalência. A omissão da Síria nas observações do aiatolá ficou evidente, o que ressalta a própria ambivalência do Irã sobre como lidar com os eventos que vêm ocorrendo. O Irã tem sido o mais forte aliado de Bashar Assad durante os cinco meses de revoltas na Síria, que o presidente sírio procura sufocar com feroz brutalidade, diante de um isolamento internacional crescente.

No entanto, nos últimos dias, mesmo o Irã vem insistindo que o presidente sírio deve buscar um modo de atender às demandas dos manifestantes, mostrando-se preocupado com o fato de que a possível queda de Assad possa aniquilar os interesses estratégicos do Irã no Oriente Médio.

No sábado, o chanceler iraniano, Ali Akbar Saleh, pediu ao governo de Assad que reconheça a "legitimidade" das reivindicações do povo sírio, a primeira manifestação do Irã desde o início dos protestos na Síria.

O Irã depende da ajuda síria para fornecer armamento e recursos financeiros ao Hezbollah, a poderosa organização política, social e militar no Líbano, e para o grupo militante Hamas, que controla a Faixa de Gaza. Ambos são inimigos declarados de Israel e considerados grupos terroristas por israelenses e pelos Estados Unidos.

O discurso de Khamenei também ilustra a situação incômoda na qual os líderes iranianos se encontram, elogiando as revoltas que têm deposto ou ameaçado líderes autocráticos nos países vizinhos e, ao mesmo tempo, reprimindo manifestações antigovernamentais no Irã, especialmente desde a contestada eleição presidencial de 2009 que, segundo dissidentes iranianos, foi fraudada para garantir a vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

O aiatolá parece reconhecer as dificuldades eleitorais do Irã, ao afirmar que este foi sempre "um assunto muito complexo" na história de 32 anos da República Islâmica.

Mas advertiu os dissidentes iranianos, que há meses andam relativamente silenciosos, a não provocarem tumultos, antecipando a próxima eleição presidencial, marcada para 2013.

"Eleições são a manifestação da democracia religiosa", afirmou. "Mas os inimigos procuram usar de modo errado as eleições para prejudicar o país." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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