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Os touros e o peru

Inimigos dessa festa abandonarão as tentativas de colocar fim a um espetáculo que é parte essencial da cultura peruana desde o início da sua existência

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2020 | 05h00

Quero dar os parabéns aos membros do Tribunal Constitucional do Peru por terem derrubado, em decisão que os honra, a solicitação dos “defensores dos animais” que pediam a proibição das touradas e das rinhas de galo no país. É verdade que foi uma sentença alcançada a duras penas – 4 votos a 3 –, mas, no momento, e espero que esse momento dure bastante, os inimigos dessa festa, que são poucos entre os peruanos, apesar de fanáticos, abandonarão as tentativas de colocar fim a um espetáculo que é parte essencial da cultura peruana desde o início da sua existência, ou seja, desde o instante em que, após luta feroz, as duas vertentes da nossa tradição, espanhola e pré-hispânica, se fundiram em uma coisa só, coisa essa que logo completará cinco séculos de existência.

A astúcia dos “defensores dos animais” os levou a identificar as touradas e as rinhas de galo como duas manifestações de crueldade contra os bichos, uma perspicácia nativa tipicamente desonesta, que aproxima coisas muito distintas entre si, ainda que em nenhuma delas haja motivo para proibição.

Eu, por exemplo, embora já tenha assistido a algumas rinhas de galo no Peru, nunca me interessei muito por esse espetáculo, que até me desagradou pela violência explícita, mas reconheço que tenha uma tradição antiga na cultura peruana – o mais belo conto de Abraham Valdelomar descreve em tons épicos a história de um galo de briga –, mostrando-se bem enraizada sobretudo na região costeira.

Proibi-las é um passo longe demais para meu espírito democrático e liberal. Ninguém é obrigado a assistir nem levar a família a uma tourada ou rinha de galo. Diferentemente dos touros, as rinhas não fazem parte das belas artes nem têm essa tradição remotíssima, cuja origem mítica se perde no tempo, concentrada principalmente na região do Mediterrâneo. Não pretendo rebaixar de maneira nenhuma o fervor com que os aficionados e praticantes dedicam seu tempo e cuidados a seus galos, ensinando-os a atacar e a se defender, nem o empenho graças ao qual, por seus esforços, às vezes heroicos, as rinhas de galo sobrevivem. 

Mas as rinhas de galo, ainda que tenham uma longa história que, na Europa, por exemplo, teve na Inglaterra sua época de ouro – quando cheguei a Londres, nos anos 60, ainda sobreviviam em alguns pubs os cartéis que lembravam delas –, são um esporte violento, no qual os seres humanos não participam diretamente, que não gerou aquela belíssima marca em todos os ramos da cultura como ocorre com a tourada.

As rinhas de galo parecem muito mais um ringue de boxe do que uma tourada. A segunda é um cenário muito parecido com uma sala de concerto, ou o palco de um balé ou, em última instância, o canto onde os poetas escrevem seus versos ou o ateliê onde escultores e pintores forjam suas criações.

E, assim como ocorre com outros ramos da cultura, uma tourada pode mudar a vida de uma pessoa, como uma peça de teatro, um livro ou um quadro. Pensava nisso poucos dias atrás, visitando o belíssimo museu dedicado às esculturas de Chillida, nos arredores de San Sebastián: Chillida Leku. Fazia um dia deslumbrante, de céu azul e sol pleno, sem uma única nuvem, e suas formidáveis criações de aço ou pedra, tão bem distribuídas pelo parque, pareciam mover-se, ferver, viver com uma plenitude devoradora.

Então, pensei naqueles momentos prodigiosos que acontecem nas “plazas de toros”, quando, de um modo misterioso, touro e toureiro alcançam uma cumplicidade inexplicável, como se homem e animal tivessem estabelecido um pacto de honra para resvalar na morte sem pisá-la, mostrar a vida em todo o seu extraordinário esplendor e nos lembrar, ao mesmo tempo, da sua fugacidade; no paradoxo em que vivemos; em como o toureiro nos mostra em uma maravilhosa dança que a graça da vida depende em grande parte da sua precariedade, desse pequeno trânsito no qual ela pode desaparecer, tragada pela morte. Por isso, nenhum outro espetáculo representa a condição humana com mais beleza e agonia do que os touros na festa.

Será por isso que a presença taurina é visível em tantas manifestações artísticas e literárias? Sem dúvida. E também porque ela foi capaz de chegar a seduzir grandes públicos de outras origens, como é o caso, no Peru, da população camponesa. Os touros estão enraizados em quase todos os setores sociais, mas, sobretudo, infiltraram-se nos setores indígenas, entre os quais dificilmente se pode conceber uma festa patronal na comunidade sem uma tourada.

Liberdade

E, por isso, as “plazas de toros” mais antigas da América do Sul estão nas cidades de Cajamarca, província mais taurina do Peru, de acordo com o crítico do jornal El Comercio, Gómez-Debarbieri, que fez um magnífico trabalho em defesa das touradas no país. Não faz muito tempo, escreveu uma resenha das touradas nas feiras populares de Chota e Cutervo, que, nos tempos mais recentes, diferentemente do que ocorria no passado, quando eram realizadas com toureiros de segunda ou amadores, passaram a contar com espadas de primeira linha, como Andrés Roca Rey e Joaquín Galdós, além de toureiros espanhóis de categoria.

Parece-me uma ideia magnífica que as duas paixões, camponesa e urbana, se unifiquem e deixem de lado sua ignorância recíproca, como ocorria faz pouco tempo. Lembro de ter lido na adolescência Yawar Fiesta, de José María Arguedas, e me surpreendido ao ver que a tourada em torno da qual gira o romance ocorria na serra. Até então, ignorava que os touros fossem um ingrediente central das celebrações populares nos Andes. A campanha contra as touradas não vai prosperar, apesar do empenho dos fanáticos “defensores dos animais”.

A França foi o primeiro país a declarar a tauromaquia um bem cultural, e agora a Espanha também blindou as corridas de touros contra seus adversários. Na América Latina, apesar das vitórias iniciais dos inimigos das touradas, surpreendendo os tribunais, vemos agora seu retrocesso, ainda que as vitórias judiciais, como no Equador, sejam apenas um meio-termo. 

No Equador, onde antes via-se célebres feiras taurinas, agora, como em Portugal, optou-se por uma festa coxa e manca, pois é proibido matar os touros. Mas, em Bogotá, a briga foi vencida por completo, e tomara que essa situação dure muito tempo.

Porque, por trás da proibição das touradas, há algo muito mais grave e sinistro do que a compaixão pelos animais, que é o pretexto usado pelos antitaurinos para combater as corridas de touros. É a falta de respeito pela liberdade, ou melhor, o desprezo por ela, a mesma mente fechada que levou os inquisidores a proibirem os romances durante os três séculos coloniais na América Espanhola sob o pretexto de não encher a cabeça dos indígenas com besteiras, a origem de todas as censuras que buscam domesticar o pensamento e a liberdade de escolha dos cidadãos. 

Por isso, a decisão dos juízes do Tribunal Constitucional do Peru deve ser celebrada não como um episódio local, e sim como uma vitória da liberdade e da democracia contra seus tradicionais inimigos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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