Alfredo Estrella/AFP
Alfredo Estrella/AFP

Os trabalhadores invisíveis que combatem a pandemia no México

Muitas vezes terceirizados, faxineiros arriscam a vida e têm poucas garantias de emprego

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 04h00

CIDADE DO MÉXICO - Eles desinfetam áreas críticas, coletam material infeccioso, lavam milhares de lençóis e mantas. Muitas vezes terceirizados, trabalhadores da limpeza arriscam suas vidas em hospitais mexicanos destinados à pandemia, sem se importar que seus esforços muitas vezes passem despercebidos.

Érika Ramírez, uma soldado de 23 anos, é uma das responsáveis ​​pela limpeza da área de terapia intensiva de um hospital militar no sul da Cidade do México.

Seu trabalho inclui a gestão de resíduos infecciosos, como seringas ou gazes, e saneamento das instalações. Por esse motivo, ela veste um traje branco semelhante ao dos médicos.

“Somos importantes, somos uma equipe e se fizermos bem a limpeza, desinfetar e higienizar as áreas, tudo isso poderá continuar com perfeição”, disse Ramírez à Agência France Press.

Apesar do alto risco de contágio, a jovem militar afirma realizar seu trabalho sem medo, embora tenha vivido com incertezas o início da emergência.

Ela admite que devido aos dias difíceis, que podem exigir até 24 horas de trabalho, tem perdido os aniversários das filhas, mas considera que o momento atual é de servir.

"O fato de não estarmos em uma reunião de família vale a pena porque fazemos um trabalho importante."

Com máscara, óculos, avental e luvas, Rodolfo Díaz, 53, desinfeta e lava, junto com outros dois colegas, os lençóis e avental usados ​​pelos pacientes de coronavírus nos hospitais da capital.

Cerca de 10 mil peças de roupa são limpas por dia nas instalações do Instituto Mexicano de Segurança Social (IMSS), uma das principais entidades de saúde do país.

“A demanda aumentou muito desde que tivemos a pandemia, (antes) eram poucas as roupas que chegavam até nós com a marca da infecção”, diz Díaz, que classifica pilhas de cobertores sujos.

Embora reconheçam que o medo está latente, todos na lavanderia tentam fazer seu trabalho da maneira mais segura.

“Procuramos nos proteger no dia a dia com toda a equipe para fazer o trabalho. É preocupante, mas gostamos dele”, esclarece.

A organização de direitos humanos Anistia Internacional disse em um relatório recente que os trabalhadores de limpeza em hospitais mexicanos "são especialmente vulneráveis" à infecção.

Embora não haja números sobre o impacto sobre esse grupo trabalhista, o trágico saldo da saúde não deixa dúvidas: segundo o governo, o setor registrou 1.320 mortes e quase 100 mil infecções até o final de agosto.

Díaz sabe que seu esforço costuma passar despercebido, mas para ele o mais importante é mandar roupas limpas aos hospitais.“Nós, como servidores públicos, como trabalhadores da saúde, estamos na linha de frente e temos que ajudar as pessoas”.

Desde o início da crise de saúde, Idalia Díaz, uma auxiliar de limpeza de 40 anos, vê o lixo crescer sem parar.

“Há mais descartáveis, mais máscaras, mais aventais”, diz a mulher, cujo trabalho é manter impecáveis ​​as lavanderias da IMSS. "Eu sou paga para fazer este trabalho e faço o melhor que posso."

A epidemia surpreendeu o México com um déficit de 240 mil médicos e enfermeiras, segundo o governo, que teve de realizar contratações massivas e adaptar os hospitais.

O país, de 128 milhões de habitantes, é o quarto com mais mortes pelo coronavírus – 71 mil. Até agora, o governo registrou 668 mil infectados. /AFP

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