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Os três grandes

A Europa ainda crê em coisas como estado de direito, democracia e liberalismo

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

09 Dezembro 2016 | 05h00

Num só dia, começaram duas ofensivas no Oriente Médio. A grande cidade iraquiana de Mossul é atacada pelo Exército do Iraque, apoiado pelo Ocidente, e a cidade síria de Alepo está sob fogo das forças do regime de Bashar Assad, apoiadas pelos russos.

Nessa corrida mortal, o contingente russo-sírio está vencendo. Enquanto Alepo está prestes a cair, em Mossul o Estado Islâmico ainda se agita. É claro que não se pode comparar as duas batalhas, mas Vladimir Putin confirma que ele é o dono do jogo – mais cínico, mais ágil, mais rápido e mais solitário.

Nos dois confrontos, a Europa, tão historicamente ligada ao Oriente Médio, está ausente ou quase não participa. Pode-se ver aí uma prova da perda de importância do continente. Hoje, nas grandes questões mundiais, tudo se decide, ou se decidirá, entre os “três grandes” – Putin, Xi Jinping e Donald Trump (esse apoderou-se dos negócios americanos sem esperar pela passagem do poder, em 20 de janeiro).

As diferenças são extremas entre esses três homens, assim como entre seus ambientes políticos. No entanto, há dois pontos comuns. O primeiro e mais evidente é o tamanho de seus reinos – a geopolítica hoje é dominada pelos mamutes. O segundo ponto é que os três pensam e atuam sob o conceito de “nação”.

Como bons industriais e comerciantes que são, sabem que o mundo econômico está globalizado. Mas, no campo da política, para eles tudo passa pela nação. As organizações internacionais não lhes interessam. Só o que vale é a nação, ecoam, em uníssono, chineses, russos e americanos.

Os europeus são os antípodas dessa exaltação nacionalista. Perseguida pelos fantasmas de duas guerras abomináveis, com combates tão sangrentos que perto deles os que se travam hoje no Oriente Médio são miniaturas, a Europa mergulhou de corpo e alma, a partir de 1948, no “supranacional”. Daí a união de 28 países europeus num bloco que deveria se tornar, em tese, o primeiro ator mundial.

As organizações supranacionais, porém, têm um inconveniente. Por alguns anos foram até fascinantes, até que a rotina desabou sobre elas com o peso de um basculante carregado de papéis e arquivos, a ponto de levar a União Europeia à beira da asfixia. Já começou a reação: a Grã-Bretanha lembrou-se de repente de que foi a maior nação do universo. Aqui e ali, Hungria, Itália ou mesmo França passam a argumentar que o supranacional é ainda melhor quando faz parte do passado.

Em comparação com a terra dos três grandes, os países europeus têm uma outra diferença que os fortalece e fragiliza: o Velho Continente continua a acreditar em coisas antiquadas como estado de direito, democracia, liberalismo, solidariedade, medicina social. Mas nem Trump, que assumirá a chefia do principal arquiteto do estado de direito, parece dar muito crédito a essas futilidades europeias.

Esse esboço de reflexão geopolítica mostra o panorama de hoje. É provável que amanhã o xadrez mundial venha a ser outro. Seja nos EUA ou na Europa, no Oriente Médio e regiões periféricas, seja entre os emergentes, o mundo entra num período ao mesmo tempo agitado e apaixonante. A Europa perdeu o fôlego e os EUA estão diante de um enigma chamado Trump.

Assim, as cartas podem ser embaralhadas de novo nos próximos meses e anos. Mas terão sempre consigo alguns dilemas: internacionalismo ou nacionalismo? Estado de direito ou religião da força? Cinismo ou moralidade? Guerras ou diplomacia? O que é certo é que vamos entrar numa estação de grandes mudanças. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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