''''Os Três Patetas não fariam pior no Iraque''''

Charles Ferguson: cineasta americano, autor de documentário sobre a guerra[br]Após série de erros que tornou impossível a vitória, resta aos EUA tentar evitar uma nova Chechênia, afirma documentarista

Entrevista com

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2017 | 00h00

"Certamente não conseguiremos vencer seguindo a definição normal de vitória - a questão agora é saber se dá para evitar o pior, uma guerra civil sangrenta." Essa é a avaliação sombria de Charles Ferguson, diretor do documentário No End in Sight (Sem fim à vista), sobre a guerra do Iraque. O filme examina os equívocos do governo de George W. Bush que transformaram uma guerra que deveria ser uma invasão fácil e rápida num conflito sangrento, sem data para terminar. Abaixo, trechos da entrevista concedida ao Estado por telefone. Por que o sr. fez o documentário?Tenho muitos amigos envolvidos com relações internacionais e políticas públicas. Eu costumava conversar com eles sobre o que estava acontecendo no Iraque e esses amigos pintavam um cenário bem diferente daquele que eu via na mídia ou o governo estava tentando passar. E ninguém estava fazendo um filme sobre isso.O filme se concentra nos erros cometidos durante a invasão do Iraque. Quais foram os principais?Houve uma meia dúzia de erros monumentais, que começaram antes da guerra. O primeiro foi a decisão de enviar um número insuficiente de soldados e o segundo foi não se preparar de forma adequada para a ocupação. A organização que tinha a função de administrar a ocupação foi criada menos de dois meses antes da invasão e não tinha pessoal, equipamento ou dinheiro para uma ocupação daquela magnitude. Depois, a decisão de não impedir os saques em Bagdá logo após a invasão, ao não se declarar estado de sítio. Aí vieram as três ordens de Paul Bremer em seus primeiros dez dias no emprego - instituir uma ocupação em vez de um governo provisório compartilhado com os iraquianos, desmantelar o Exército iraquiano e demitir do setor público todos os membros do Partido Baath (que era de Saddam Hussein). Em artigo no blog Huffington Post, o sr. diz: "Se juntássemos os Três Patetas, os irmãos Marx e todo o elenco de ?Saturday Night Live? num filme de guerra, eles não conseguiriam chegar nem perto do que o governo Bush fez no Iraque." Num país com instituições sólidas como os EUA, por que tantos erros foram cometidos? Acho que foi uma combinação de várias coisas - as características pessoais de um grupo pequeno no alto escalão do governo, combinadas com o 11/9, que deu a essas pessoas licença política para fazer coisas que talvez não fossem politicamente factíveis em outras circunstâncias. Também uma arrogância e crença na integridade moral de suas próprias idéias. Eles tinham pouquíssima experiência militar e nenhuma experiência em combate, em ocupações ou em Oriente Médio. É possível vencer a guerra?Depende do significado de vencer. Certamente não conseguiremos vencer seguindo a definição normal de vitória. Agora a principal questão é saber se dá para evitar o pior - uma guerra civil sangrenta, algo como Chechênia ou o genocídio em Ruanda. Estou moderadamente otimista a esse respeito e acredito que dá para evitar. Mas o Iraque não será um lugar normal por muito tempo. Pelo que o sr. acompanhou do depoimento do general David Petraeus (cuja proposta de retirar 30 mil dos 169 mil soldados americanos no Iraque até julho, graças a "alguns avanços", foi aceita na semana passada por Bush), há esperança no horizonte?É difícil achar que há uma mudança de rumo para melhor. Tenho sentido um desespero entre as pessoas com quem converso. Uma delas, um cientista político sério, que já trabalhou no Iraque, acha que deveríamos dizer ao governo iraquiano que, se seus membros não entrarem em um acordo em 90 dias, nós vamos embora.Um ultimato?Sim, um ultimato. E eu tenho conversado com iraquianos secularistas, educados, que acreditam na democracia, e eles me dizem que a única solução possível agora é um golpe e um estado de sítio. Como as pessoas têm reagido ao filme? O filme não tem sido alvo de muitos ataques - as poucas críticas vêm, para minha surpresa, da esquerda. Pessoas de extrema esquerda dizem que o filme não condena o governo Bush o suficiente e não critica muito a idéia de usar o poder militar para tirar Saddam do poder. Mas essa foi uma decisão consciente, eu queria fazer um filme que fosse acessível também para pessoas que não se opunham à guerra, que explicasse como chegamos a esse ponto, até para quem achava que a decisão de invadir era legítima.Quando vi o filme, num cinema de Washington, foi exibido o trailer do documentário "Sombra da Lua" (sobre os primeiros astronautas a pisar na Lua). Dava para sentir a alegria e até certo orgulho do público. Já quando acabou seu documentário, todo mundo estava cabisbaixo. Em que nível a invasão do Iraque e o impasse da guerra afetaram a auto-estima dos americanos e o status dos EUA?Muito. É difícil quantificar. E ainda não sabemos o quanto dessa auto-estima e desse respeito vai ser possível recuperar e quão rapidamente. Vai depender muito do próximo presidente. Quem é:Charles Ferguson Doutorado em Ciências Políticas no Massachusetts Institute of Technology. Foi pesquisador do Brookings Institution Seu filme ?No End in Sight?, sobre erros dos EUA no Iraque, venceu o Festival de Sundance na categoria de documentário e é sucesso de crítica

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