EFE/Miguel Gutiérrez
EFE/Miguel Gutiérrez

Os últimos dias de Óscar Pérez, o Robin Hood da Venezuela

O jornal 'New York Times’ entrevistou Óscar Pérez, líder rebelde, pouco antes de ele morrer em operação militar nos arredores de Caracas, na semana passada

Nicholas Casey, New York Times, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 20h17

CARACAS - O fim tinha chegado para Óscar Pérez. Por seu rosto escorria sangue. Seus homens lutavam contra os agentes do governo que cercavam seu esconderijo. Horas depois, ele e seis de seus companheiros estavam mortos.

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Pérez, abatido no dia 15, passou seus últimos anos como protagonista de narrativas espetaculares – algumas na tela e outras nas na vida real – nas quais ele sempre interpretava o herói.

Foi protagonista de um filme de ação em 2015: um piloto que lutava contra o crime saltando de paraquedas com um cão preso nas suas costas. Em junho, liderou um ataque com helicóptero durante os protestos na Venezuela e disparou contra o Tribunal Supremo e exortou a população a se rebelar.

Pérez passou muitas tardes de dezembro e janeiro enviando mensagens ao jornal The New York Times, a quem transmitiu as últimas palavras de um homem que foi o mais procurado da Venezuela: um agente de polícia rebelde e um lutador foragido, que às vezes parecia estar muito ciente de que seus dias poderiam estar contados.

“Luto pela liberdade do país. O temor pela minha vida é o que menos tenho agora. Não é temor por minha vida, mas o temor de fracassar, de fracassar com as pessoas”.

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Para o governo ele era um terrorista. Para seus seguidores foi um lutador pela liberdade, um herói popular como Robin Hood ou Che Guevara. Alguns céticos diziam que sua história não era verdadeira; que teria sido um agente duplo para prejudicar a oposição.

De qualquer forma, suas ações foram acompanhadas em todo o país e no exterior, levando à tona uma crise econômica que deixou os hospitais sem remédios e levou crianças a morrerem de desnutrição. Mas Pérez disse que ficou aborrecido com o fato de seu apelo para que a população saísse às ruas e se levantasse contra o governo não ter sido atendido. “Esperávamos que nesse dia as pessoas percebessem que havia começado um movimento”, disse.

O filme que Pérez estrelou exaltava o trabalho da polícia e mostrou a força policial que ele desejava que existisse na Venezuela. Mas a realidade que ele vivia era muito diferente. Grupos armados ligados ao governo, conhecidos como coletivos, trabalhavam com a polícia para extorquir e roubar. Investigações eram bloqueadas, incluindo algumas sobre carregamentos de drogas.

“Eles eram os que estavam traficando drogas”, disse Pérez sobre os funcionários do governo. Segundo ele, entre os envolvidos estaria Néstor Reverol, atual ministro do Interior, Justiça e Paz da Venezuela (Reverol é acusado pelos EUA de bloquear investigações sobre o narcotráfico quando comandava a Guarda Nacional Bolivariana.

Na semana antes do ataque com helicóptero, seu irmão tinha sido assassinado por ladrões que lhe roubaram o celular. Ele disse que, para ele, foi duro vê-lo morto vítima da delinquência, produzida pela má gestão do governo.

Em seu último vídeo, Pérez olha para o celular com o sangue escorrendo do olho direito. Pede aos venezuelanos que sai para as ruas imediatamente, enquanto se escutam tiros. Diz que queria se entregar e o governo não aceitou. Por fim, reconhece que seu tempo tinha se esgotado e se despede dos filhos. Seu corpo é levado para o necrotério de Caracas, o mesmo onde teve de reconhecer o corpo do irmão e onde havia decidido que havia chegado o momento de agir. / NYT

 

 

 

 

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