Os últimos dias do jornalismo britânico

O escândalo de escutas ampliou a pressão por uma regulamentação da imprensa para impedir desvios

É JORNALISTA, ALEX, MASSIE, THE NEW REPUBLIC, É JORNALISTA, ALEX, MASSIE, THE NEW REPUBLIC, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h04

Como todo jornalista sabe, reportagens podem seguir direções imprevisíveis. O sequestro e o subsequente assassinato de Milly Dowler, garota de 13 anos raptada a caminho de casa vindo da escola, em Surrey, em 12 de março de 2002, deu origem a um julgamento que levou não só à condenação do seu assassino, mas ao fechamento de um dos mais respeitados jornais britânicos, complicou a vida de um poderoso magnata da mídia e talvez tenha criado a mais grave ameaça à liberdade de imprensa em tempo de paz de que temos memória.

A descoberta de que jornalistas apagaram mensagens do correio de voz do celular de Milly Dowler, o que, segundo as alegações, teria dado "falsas esperanças" à família da menina de que ela ainda poderia estar viva, transformou uma reportagem de tabloide acompanhada avidamente pelo público britânico num desastre histórico para a imprensa do país.

Reprovação. Rupert Murdoch, que jamais foi considerado um sujeito bonachão, que se envergonha facilmente, foi chamado à ordem, e o seu News of the World, tabloide publicado aos domingos, abruptamente fechado. Mas as coisas não pararam aí: o Parlamento manifestou-se com discursos reprovadores contra Fleet Street. Os caçadores rapidamente descobriram o quão divertido era ser caçado pelos inimigos que aguardavam há anos, senão décadas, essa oportunidade. As alegações, nem todas infundadas, de relações indesejáveis entre a imprensa e oficiais da polícia facilmente subornáveis, aliadas à suspeita de que as empresas de mídia ditavam a política para os políticos - e não o inverso como seria de esperar - deixaram claro que as regras do jogo da mídia nunca mais seriam as mesmas.

O inesperado instrumento da mudança foi o primeiro-ministro David Cameron. Ele ficou tão envergonhado por causa de suas relações muito próximas com os jornalistas (e especialmente com o império Murdoch) que não teve outra alternativa senão ordenar um inquérito sobre a situação da imprensa britânica, conduzido por um juiz experiente, Lord Brian Leveson.

Um ano depois Leveson apresentou seu relatório de 2 mil páginas. Previsivelmente, o documento provocou uivos de indignação dos jornalistas (que temem que seus privilégios estejam sob ataque) e de membros da oposição no Parlamento (que temem que Cameron evite aplicar as recomendações mais importantes de Leveson).

Reconhecendo que a imprensa estava preocupada com a perspectiva de uma "regulamentação imposta por lei" (ou seja, uma fiscalização direta), o relatório de Lorde Leveson recomendou a criação de um órgão autorregulador independente corroborado por uma lei. Seja uma regulamentação imposta por lei ou não, no final esta é uma questão de menor importância. Pode não ser qualificada como tal, mas, se sancionada pelo Parlamento, é o que será. O homem, ou mulher, encarregado de "garantir" um novo regime regulatório que atenda ao "nível exigido de independência e eficiência", conforme as propostas de Leveson, será indicado pelo governo. Em outras palavras, o novo regime recomendado por ele seria independente dos jornais, mas não necessariamente independente do governo.

Naturalmente, Leveson também declarou que essa figura só se envolveria nos assuntos da imprensa na eventualidade de a nova regulamentação se mostrar ineficaz. Mas não é preciso ter grande visão profética para prever que isso pode ocorrer em breve. A imposição de regras é um fato da vida. Por que seria diferente no caso da imprensa? Acreditar no contrário é tão ingênuo quanto supor que os únicos vilões de Fleet Street eram os empregados por Rupert Murdoch.

Leveson foi claro: "Não posso - e não o farei - recomendar que se dê uma última chance para a imprensa", afirmou. E observou que há pelo menos 70 anos são realizadas campanhas em favor de uma reforma da imprensa.

Mas deixando de lado o moralismo de Leveson, e apesar do testemunho da família de Dowler e outras vítimas da cultura jornalística britânica, esta não é, no final, uma luta das pessoas comuns contra a poderosa Fleet Street. Em sua essência, é uma luta de poder entre políticos e a imprensa.

Barões. Grande parte da esquerda britânica considera a imprensa similar a um bando de barões medievais superpoderosos e saqueadores que há muito tempo deveria ser subjugada e se submeter a alguma forma de justiça sumária, o que envolve um certo desejo de vingança e massacre. Murdoch, apesar de sua disposição de apoiar jornais que perdem dinheiro como o Times, é o maior de todos os vilões na imaginação da esquerda.

Qualquer coisa que possa colocar Murdoch no seu lugar é considerada válida, não importa o risco, o custo e os contratempos. Mesmo que tenha consequências imprevistas ou inoportunas.

Mesmo a direita não está solidamente ao lado dos interesses da imprensa (ou, se desejar, das liberdades da imprensa) como outrora.

Cerca de 42 parlamentares conservadores escreveram a Cameron defendendo uma legislação para refrear os excessos do jornalismo. Se fosse somente uma questão de algumas poucas regras seria mais fácil apoiar o relatório de Leveson. Mas esta é uma posição difícil de sustentar. A tentação para se acrescentar um pouco mais (em nome da ordem) estará sempre presente. O que não significa dizer que aqueles infelizes denegridos pela imprensa britânica não devem ter uma maneira mais rápida, mais eficaz e mais barata de ter suas reclamações atendidas.

As regras do jogo estão mudando e, como a nobreza siciliana de Lampedusa, a imprensa começa a entender que as coisas terão de mudar se a ideia é que continuem como são.

Mas a cultura do jornalismo britânico merece ser protegida. Fleet Street sempre se orgulhou da sua capacidade de viver de expedientes. Seus profissionais participam de um negócio asqueroso; ao contrário dos seus contrapartes americanos, não se consideram membros de uma classe profissional. Embora não tenha a proteção de algo tão nobre como a 1.ª Emenda, a imprensa britânica até agora conseguiu prosperar à sua própria maneira belicosa, usando de expedientes ao mesmo tempo que serve o público leitor.

Mas, mesmo sem uma regulamentação corroborada pelo governo, parece que essa tradição não vai durar. As expectativas e as preferências da sociedade mudaram irrevogavelmente. Contudo, à medida que as luzes começam a tremular, não podemos deixar de perguntar se a vida pública excepcionalmente honrada da Grã-Bretanha realmente será aprimorada por qualquer das recomendações de Leveson.

Mas o juiz parou para pensar nisso. Nas 2 mil páginas de reflexões e recomendações ponderadas, ele devotou apenas uma única página à internet. Se este é o fim de uma era, significa apenas o início de outra. O jogo continua. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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