REUTERS/Shannon Stapleton
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'Os únicos que podem fazer algo na Síria são a Rússia e o Irã', diz especialista

Para Philippe Moreau, cientista político do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), expert em geopolítica, uma ação só acontecerá no quadro de uma coalizão internacional com a participação dos Estados Unidos

Andrei Netto, Correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2018 | 05h00

Para Philippe Moreau, cientista político do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), expert em geopolítica, uma ação só acontecerá no quadro de uma coalizão internacional com a participação dos Estados Unidos. Isso exigiria um acordo sobre uma estratégia comum. "Os únicos países que podem fazer algo na Síria hoje são a Rússia e o Irã, os aliados de Bashar Assad. Daí minha conclusão: nada vai acontecer." Leia abaixo os principais trechos das entrevistas:

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Macron afirma que a França pode provar o envolvimento do regime sírio no último ataque químico à cidade de Duma. Qual sua análise sobre a posição da França em relação à de Trump nos EUA? 

A França constata algo de incontestável. Na comunidade ocidental há uma clara concordância sobre o fato de que o regime de Bashar Assad vem utilizando armas químicas contra a população civil. O problema é: o que fazer? 

E o que se pode fazer?

Antes de mais nada, a França não fará nada sozinha. Uma ação só acontecerá no quadro de uma coalizão internacional com a participação dos Estados Unidos. Isso exigiria um acordo sobre uma estratégia comum. Outro caminho pelo qual a França poderia agir seria por via da Organização das Nações Unidas. Mas a Rússia imporá seu veto a qualquer forte iniciativa no Conselho de Segurança. O impasse é que de um lado os ataques químicos contra civis são incontestáveis, e de outro os ocidentais não podem ou não estão prontos a fazer grande coisa para mudar esse cenário.

Nem via Justiça internacional?

Haveria ainda o caminho de um processo no Tribunal Penal Internacional, mas lá também a Rússia poderá bloquear o avanço. Um processo no TPI faria com que Bashar Assad deixasse de ser um interlocutor político, e Moscou não tem interesse nisso. 

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O senhor diz que uma ação militar é pouco viável. Então o que é possível fazer com Bashar Assad?

Há anos o Ocidente faz a mesma questão, em especial desde o episódio da “linha vermelha” estabelecida por Barack Obama, que não foi respeitada por ele próprio. E nada mudou desde então. A única mudança foi a degradação acentuada da situação da população civil da síria. O Ocidente está embaraçado pela crise na Síria. A lógica seria uma ação militar contra o regime de Bashar Assad. Mas essa saída está fora de cogitação, porque o Ocidente ainda está marcado pelas intervenções no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e em outros lugares. E todas essas intervenções fracassaram.

Não há nenhuma chance de se enviar militares em solo sírio?

Não, nenhuma. Nada de muito importante vai acontecer. A única via possível, e muito problemática, seria o Tribunal Penal Internacional. Mas além da reação natural da Rússia de Vladimir Putin, um processo no TPI seria muito longo e muito complexo. Os únicos países que podem fazer algo na Síria hoje são a Rússia e o Irã, os aliados de Bashar Assad. Daí minha conclusão: nada vai acontecer.

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Nesse caso, Trump repetiria Obama, e Macron, François Hollande. Todos ameaçaram, mas acabariam não tomando nenhuma iniciativa.

É verdade. Por um lado, denunciar os ataques químicos é algo importante. Pior seria se nem falassem a respeito. EUA e França farão pressão política sobre a Rússia, para que Moscou faça algo e impeça que seu aliado use armas químicas. Daí a dizer que a Rússia fará algo, eu duvido. Mas a pressão internacional teria o objetivo de humilhar a Rússia.

Ainda assim o mestre do jogo continua a ser Vladimir Putin, não?

Sim, mas ele também vai pagar muito caro. Seu problema é o fato de que ele terá de, cedo ou tarde, encontrar uma solução para a Síria. Putin não pode mais simplesmente posar como protetor de Assad, o que seria insuportável até mesmo para o presidente russo. O Ocidente tentará arrancar algo de Putin, e Putin terá de tentar buscar uma solução política. Ou não – e nesse caso a tragédia síria vai continuar, porque o Ocidente não quer nem empregar os meios, nem tem uma verdadeira vontade de fazer algo. 

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