Zacharias Abubeker / AFP
Zacharias Abubeker / AFP

Os ganhadores do Nobel da Paz que vão à guerra

'O comitê do Nobel tem uma lição a aprender: em caso de dúvida, melhor esperar', diz o 'Financial Times'

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 04h00

OSLO - O comportamento esperado de um "campeão da paz" não é precisamente anunciar um ataque "implacável", executar sua ameaça ou gerar uma crise humanitária grave. Mas estas foram as atitudes recentes do ganhador do prêmio Nobel da Paz de 2019, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed.

Oficialmente, os canhões estão silenciosos no Tigré: em 28 de novembro, Abiy Ahmed proclamou o sucesso da ofensiva militar que iniciou contra esta região dissidente do norte da Etiópia 24 dias antes.

Não foi possível estabelecer o custo em vidas humanas, mas o International Crisis Group (ICG) fala de "vários milhares de mortos nos combates" e a ONU de uma "crise humanitária de grandes proporções" diante da legião de civis que tiveram de fugir do país.

E a aura do primeiro-ministro etíope sofreu um duro golpe. 

"Independente dos méritos e dos erros da luta atual, o que está claro é que sua reputação de pacificador será gravemente afetada", afirmou o Financial Times em um editorial em 11 de novembro. "O comitê do Nobel tem uma lição a aprender: em caso de dúvida, melhor esperar", concluiu.

Uma paciência que teria ajudado em vários casos do passado, segundo os historiadores.

Dez anos antes, Barack Obama ganhou o Nobel apenas nove meses depois de assumir a presidência dos Estados Unidos. Talvez o primeiro a ficar surpreso tenha sido ele mesmo. "Por quê?", admitiu ter questionado, em uma recente autobiografia.

Três bombas por hora

Três dias antes de receber o prêmio em Oslo, o presidente americano decidiu enviar 30 mil soldados a mais ao Afeganistão. E em seu discurso de agradecimento, defendeu uma espécie de direito à "guerra", uma palavra que pronunciou 35 vezes contra as 29 ocasiões em que usou a palavra "paz".

"Dizer que a força é às vezes necessária não é um apelo ao cinismo, é o reconhecimento da história, das imperfeições do homem e das limitações da razão", argumentou.

Ele não só não conseguiu acabar com os conflitos no Iraque e Afeganistão durante seus dois mandatos, como intensificou os polêmicos bombardeios com drones. Em 2016, seu Exército lançou mais de 26 mil bombas em sete países, segundo o centro de estudos Council on Foreign Relations. Ou seja, três bombas por hora.

Nobel e 'genocídio'

O então primeiro-ministro israelense Menachem Begin, que recebeu o prêmio em 1978 junto com o presidente egípcio Anuar Al-Sadat pelo acordo de paz assinado em Camp David no mesmo ano entre os dois países, também deixou uma herança manchada de sangue, segundo o historiador norueguês Asle Sveen, especialista em Prêmio Nobel. 

"Depois, Beguin ordenou a invasão do Líbano por Israel em 1982 e de Beirute, e isso indiretamente levou aos massacres de palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila", lembra o historiador.

Sem mostrar um lado belicoso, muitos premiados com o Nobel da Paz viram sua estrela desaparecer, em particular Aung San Suu Kyi.

A passividade da "Dama de Yangun" diante dos abusos - classificados como "genocídio" por pesquisadores da ONU - contra a minoria muçulmana rohingya em Mianmar gerou uma mobilização em massa para que seu prêmio concedido em 1991 seja revogado.

Os estatutos do Nobel não preveem tal possibilidade e, no geral, o comitê se abstém de comentar a atualidade de um premiado./AFP 

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