Os venezuelanos estão incomodados. E Maduro sabe

Ao doar gasolina e desprezar os EUA como importadores, chavismo estimulou instabilidade; agora, uma eleição regional pode mudar rumo do governo

Juan Nagel*, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2013 | 02h14

Em 8 de dezembro, os venezuelanos irão às urnas para eleger prefeitos e vereadores. Teoricamente, parece que essa eleição terá poucas consequências. Contudo, tanto o governo quanto a oposição aumentaram suas apostas, transformando-a num referendo virtual sobre o fraco governo do presidente Nicolás Maduro.

Não foi um bom ano para o presidente. Embora tenha conquistado a presidência na eleição de abril, após a morte de Hugo Chávez, ele assumiu o cargo e ficou estagnado. Para muitas pessoas, Maduro desperdiçou o importante capital político deixado por Chávez, mal conseguindo uma vitória apertada numa eleição marcada pela controvérsia. Seu principal concorrente, Henrique Capriles, ainda não reconheceu a derrota diante das inúmeras irregularidades na votação e uma auditoria plena jamais foi realizada.

Maduro enfrenta enormes dificuldades econômicas e financeiras, já que a Venezuela contabiliza um imenso déficit orçamentário. Como a produção local despencou e o câmbio está supervalorizado (a taxa no mercado paralelo é dez vezes maior do que a oficial), o país está basicamente importando tudo o que consome.

Mas não é suficiente: a escassez de produtos de primeira necessidade aumentou e a crise persistiu durante todo o ano.

Os problemas enfrentados por Maduro são em parte consequência das estratégias políticas adotadas por Chávez no setor do petróleo. A falta de manutenção das refinarias locais, combinada com a oferta de gasolina quase grátis, levou a Venezuela a despender hoje milhões de dólares em derivados de petróleo dos EUA a preços de mercado. Além disso, a mudança da clientela da Venezuela afetou negativamente sua balança de pagamentos.

Há anos, Chávez decidiu vender menos petróleo para os EUA e mais para economias emergentes como China e Índia. Hoje, a Venezuela é uma fornecedora pouco significante de petróleo bruto para os EUA, mas as vendas para Índia e China saltaram. Essa mudança teve um custo: as vendas para a China têm sido usadas para pagar os generosos empréstimos feitos pelos chineses e as exportações para a Índia são oneradas pelos enormes custos com o transporte. De acordo com a consultora de petróleo local, a Subaeshi, essa mudança de mercados causou uma perda de receita de cerca de US$ 9 bilhões, ou 3% do PIB do país.

Pesquisas de opinião mostram que os venezuelanos estão insatisfeitos e Maduro sabe disso. Por essa razão ele declarou 8 de dezembro, data das eleições municipais, o "Dia de Lealdade e Amor para com o Comandante Supremo Hugo Chávez e a Pátria". Ligando descaradamente essas eleições ao ainda popular Chávez, ele pretende fazer do voto contra seu governo uma "traição".

Se o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), de Chávez, for derrotado nas urnas, como várias pesquisas sugerem, Maduro enfrentará demandas para mudar o curso da administração dentro do próprio partido, ou pior, por parte dos militares. Neste momento, tais demandas ainda são veladas, mas é significativo o fato de Maduro não figurar nos anúncios de propaganda de muitos dos candidatos do governo. Só uma pessoa aparece: Hugo Chávez.

A oposição venezuelana precisa conquistar prefeituras consideradas chave para empreender uma luta ainda mais intensa para desbancar Maduro. Capriles deu a entender que pretende atacar Maduro propondo um referendo num futuro próximo. Para seus planos funcionarem, ele necessita de conhecimento sobre como articular a votação, o que somente um líder local pode propiciar. E precisa também que sua base comece a acreditar no voto como um instrumento de mudança.

A oposição deverá ter um bom desempenho na eleição para as prefeituras dos grandes centros urbanos. Está a caminho de uma reeleição fácil nos distritos de Sucre, Chacao e Baruta, em Caracas, e tem boa chance conquistar prefeituras da Grande Caracas e de Maracaibo, a segunda maior cidade do país.

Um local em que provavelmente ela não deve vencer é em Libertador, distrito mais central de Caracas e base de muitos políticos do chavismo. Conservar essa prefeitura é crucial para o governo e o prefeito chavista do distrito parece relativamente seguro no seu cargo.

A eleição de 8 de dezembro não mudará a vida dos venezuelanos. Os problemas que afetam a Venezuela continuarão. Mas se a oposição sair vitoriosa, Maduro terá de responder às demandas para fazer mudanças importantes.

A dinâmica política mudará em favor da oposição e Capriles verá suas chances de desbancar Maduro aumentarem. Se, por outro lado, o governo sair vencedor, os eleitores da oposição podem resolver abandonar essa estratégia eleitoral para sempre, abrindo a porta para outros enfoques mais radicais.

Depois do vazio deixado pela morte de Chávez, o cenário econômico e político continua instável. Independentemente do seu resultado, essa primeira eleição da era Maduro sugere turbulências pela frente.

*Juan Nagel é blogueiro venezuelano no blog Transitions, coeditor do 'Caracas Chronicles' e autor do livro 'Blogging the Revolution'.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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