Os verdadeiros amigos de Israel nos Estados Unidos

Escolha de Hagel para a chefia do Pentágono mostra que o país precisa ouvir palavras difíceis de aliados

ROGER , COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ROGER , COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2013 | 02h08

Análise

A decisão do presidente americano, Barack Obama, de nomear Chuck Hagel - um republicano não ortodoxo com suficiente experiência em guerras para abominá-las - seu novo secretário de Defesa é a escolha certa por muitas razões. A principal delas provocará um debate sério sobre o que constitui uma real amizade com Israel.

Esse debate, que se desenrolará durante as audiências de confirmação no Senado, é muito necessário, pois a liderança judaica nos Estados Unidos com frequência não representa os muitos judeus americanos que se afastaram da visão de que o único apoio legítimo a Israel é o apoio incondicional a Israel, e a única marca de amizade é o abraço acrítico de um amigo.

O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, deu início aos ataques à nomeação: "Essa é uma nomeação provocativa do presidente a todos nós que apoiamos Israel." O comentário, que tem como base a falta de entusiasmo de Hagel com uma guerra contra o Irã e em sua alusão isolada a defensores de Israel como "lobby judaico" foi do mesmo porte que a provocação republicana, no ano passado, de que Obama, um forte defensor da segurança de Israel, havia atirado Israel "embaixo do ônibus".

Os eleitores judeus, que apoiaram Obama em massa mais uma vez apesar das cotoveladas pouco sutis do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, demonstraram nas urnas o que achavam dessa caracterização do presidente.

Identificar os inimigos de Israel é fácil. Khaled Meshal, o líder do Hamas, ilustrou isso quando declarou: "A Palestina é nossa do rio ao mar e do sul ao norte. Não haverá concessão de uma polegada de terra. Jamais reconheceremos a legitimidade da ocupação israelense."

Esse é o tipo de posição intransigente, propensa à aniquilação, que vem sendo uma proposta perdedora desde 1948 e continuará solapando a legítima busca palestina por um Estado ao lado de um Israel seguro - aquela abraçada pelo presidente palestino, Mahmoud Abbas - enquanto for defendida pelos oportunistas mercadores do ódio.

É mais difícil, porém, decidir quais são os verdadeiros amigos de Israel - e essa decisão é crucial para Israel e para o futuro da política americana para com o Estado judeu. Faz tempo que essa questão está entre as preocupações do presidente.

Durante a campanha de 2008, numa reunião com a comunidade judaica de Cleveland, Obama disse: "E aqui eu preciso ser honesto e espero não ser expulso da escola. Acho que há uma corrente dentro da comunidade pró-Israel para a qual a menos que você adote uma abordagem inflexível pró-Likud para com Israel você é anti-Israel. Não pode ser essa a medida de nossa amizade com Israel. Se não pudermos manter um diálogo honesto sobre como alcançar esses objetivos, não faremos progresso." Ele sugeriu que equiparar "perguntas difíceis" a "ser anti-Israel" era uma barreira ao avanço.

Cinco anos depois, esse diálogo necessário avançou muito pouco. Os autodenominados "verdadeiros amigos" de Israel, que agora se alinham contra a nomeação de Hagel, na verdade só são verdadeiros amigos do direito israelense de só falar da boca para fora em uma paz com base em dois Estados (quando chega a falar); de continuar a construção de assentamentos na terra cada vez menor onde um Estado palestino é pensado; de não conseguir encontrar um interlocutor palestino válido na face da Terra, apesar da liderança reformista moderada de Abbas e do primeiro-ministro Salam Fayyad. Esses "verdadeiros amigos" gritam mais alto. Eles são bem organizados e impiedosos.

E há os outros amigos de Israel, os mais calmos, os muitos que estão inabalavelmente comprometidos com a segurança de Israel dentro de suas fronteiras de 1967 (com acordos de trocas de terras); que acreditam que a expansão contínua dos assentamentos na Cisjordânia é contraproducente e errada; que sustentam que a busca de boa-fé de uma solução de dois Estados envolverá concessões penosas de ambos os lados (o abandono palestino do "direito de retorno" e o abandono israelense de terras conquistadas é o único caminho verdadeiro para a segurança israelense e a salvação de seus valores judaicos básicos.

Hagel, como Obama, é um amigo forte e calmo de Israel. O movimento contra ele é uma relíquia de uma visão binária, pró-Israel ou contra Israel, que não leva em consideração os verdadeiros interesses de Israel e dos Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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