Os votos que palestinos e israelenses precisam

Oriente Médio precisa de líderes que estejam mais sintonizados com a nova realidade da região

O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2011 | 03h01

Na disputa pelo prêmio de incompetência no Oriente Médio, Binyamin Netanyahu fez o que parecia impossível: superou Mahmoud Abbas. Um amigo analista pró-palestino diz que Abbas é "incompetente, corrupto e obcecado para saber de onde virá o seu próximo dólar". Como eu disse, trata-se de um simpatizante da causa palestina.

 

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Ele ainda não entendeu por que Abbas tenta aprovar o reconhecimento do Estado palestino no Conselho de Segurança da ONU, onde a iniciativa será vetada, em vez de apresentá-la à Assembleia-Geral, de onde sairia facilmente vencedora. Está certo, a última opção garante aos palestinos apenas o status de Estado não membro, mas, no primeiro caso, eles não obteriam nada.

Meu amigo levantou algumas razões. Uma delas é a estupidez. Outra é o fato de ele querer ocupar o centro das atenções uma última vez antes da aposentadoria. Mas, motivos à parte, Abbas fez algo que seu homólogo israelense não conseguiu. Ele tomou a iniciativa e redefiniu o debate. Tentou sair do âmbito das negociações que não levaram a lugar nenhum e conseguiu que todos os demais saíssem em disparada reagindo a essa iniciativa.

Abbas conseguiu porque percebeu que o sentimento global hoje é plenamente favorável à ideia do Estado palestino e há uma profunda frustração com a paralisia do processo de paz e com a política provocativa e contraproducente dos assentamentos israelense. No pior dos casos, ele conseguirá mostrar quais são os países que apoiam um Estado palestino e o quanto esse apoio é profundo.

Há evidências de que as coisas estão mudando, mas não em benefício de Israel. Algumas evidências estão partindo de Washington. Claro, Barack Obama está tentando evitar a votação na ONU e manifestou seu apoio a Israel. No entanto, o grande sinal de que a maré mudou vem dos cortes do orçamento americano. A Casa Branca propôs redução de gastos com as guerras no Iraque e no Afeganistão, o que, na minha opinião, é como se a mulher de alguém quisesse economizar concordando em não comprar um novo Bentley.

O mais importante do anúncio é o sinal de que está chegando ao fim a guerra ao terror e a política externa americana deixará de ser voltada para o extremismo islâmico. Isso significa que o fantasma que fez Israel ser estrategicamente importante está se desfazendo e os EUA planejam ter um papel muito menor na região, que será reduzido ainda mais quando os cortes orçamentários forem aprovados.

O impacto dessas mudanças deve ser analisado junto com o correspondente aumento da promessa de novos Estados democráticos, moderados e seculares no Oriente Médio. As recentes declarações de Ahmet Davutoglu, chanceler turco, sobre a conveniência de se criar uma pareceria entre Turquia e Egito devem enviar uma mensagem a Israel.

Embora Davutoglu tenha afirmado que a aliança "não será um eixo contra nenhum outro país", certamente os israelenses não ficaram mais tranquilos - nem os iranianos. Se essa relação se consolidar, Turquia e Egito terão uma importância muito maior para os EUA na promoção de seus interesses na região do que Israel jamais conseguiu ter. Isso poderá causar uma mudança na política americana, mesmo que Washington não retire suas forças da região.

No entanto, se os EUA diminuírem sua presença na região, Turquia e Egito exercerão cada vez mais influência. Portanto, a situação nessa parte do mundo inclui a primavera árabe, o crescente reconhecimento de que a estabilidade no Oriente Médio tem mais relação com ascensão dos moderados do que com o equilíbrio de poder do passado. A nova realidade também está ligada à retirada americana, à ascensão de forças regionais que preferem passar para a ação (como os turcos), ao maciço apoio global aos palestinos e a Netanyahu, que tem adotado políticas como se estivesse em junho de 1967.

Ele conseguiu afastar seus amigos e a fazer com que seus inimigos, antes fracos, parecessem mais fortes. Quando a simples aceitação do direito palestinos de ter um Estado lhe teria proporcionado uma superioridade e uma posição melhor para reivindicar o reconhecimento de seu próprio direito de existir como Estado judeu, ele optou por uma estratégia descontrolada, não construtiva, anacrônica, que colocou seu país em um perigo maior do que em qualquer outra época nos últimos 40 anos.

Inadvertidamente, Netanyahu está fazendo tudo o que pode para que, como Abbas, tenha o seu canto do cisne. Talvez isso não seja tão ruim. No momento, ambos os países precisam de líderes mais sintonizados com a nova realidade da região e percebam que há um acordo a ser concluído. É por isso que a votação que realmente importa para a paz entre israelenses e palestinos não é a que ocorrerá na ONU, mas a que se dará nas urnas de ambos os países. Esperemos que isto ocorra logo. /

TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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