Ostras eram proteção natural contra furacões em NY

Análise: Paul Greenberg / NYT

É ESCRITOR , O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2012 | 02h03

Aqui onde moro, na extremidade de Manhattan, na fronteira entre as zonas de refúgio B e C, já tinha me preparado, ou quase. Enchi a banheira de água, assim como todos os recipientes que tenho em casa. Pus pilhas novas nas minhas lanternas, a dispensa repleta de latarias, e até assei uma carne de porco que pretendo comer no escuro, se a eletricidade for desligada.

No entanto, enquanto verifico, cheio de confiança, a lista de itens que o governador Andrew Cuomo recomendou para eu me defender, caso de o furacão Sandy desabasse com força em cima de mim, percebo desesperadamente que sinto a falta de uma coisa: gostaria de ter algumas ostras.

Não me refiro às ostras comestíveis - embora uma dúzia pudesse acompanhar perfeitamente aquela garrafa de champanhe que está guardada e terei de tomar se a geladeira ficar desligada. Estou falando das ostras que antigamente protegiam os nova-iorquinos das tempestades, uma população bivalve de trilhões de criaturas que tinham uma função fundamental na estabilização da linha costeira de Washington até Boston.

A Crassostrea virginica, a ostra americana, a mesma que costumamos comer em sua concha, é endêmica no Porto de Nova York. O que não surpreende: o melhor lugar para as ostras é a linha em que a água salgada do mar se encontra com a água doce do rio. Nosso porto está repleto desses lugares. Miríades de rios e regatos, não digo o Hudson e o East, mas o Raritan, Passaic, Kill Van Kull, Arthur Kill - a lista vai longe - descem da parte alta para a parte baixa do porto, trazendo os nutrientes vindos do interior e distribuindo-os por toda a faixa costeira.

Até a chegada dos colonizadores europeus, as ostras, beneficiando-se da multiplicação das algas do estuário proporcionada por todos esses nutrientes, construíram um reino próprio. Gerações após gerações de larvas de ostras arraigaram-se às camadas de cascas de ostras maduras durante mais de 7 mil anos até criar enormes recifes submarinos ao redor de praticamente toda a costa de Nova York.

Assim como os corais protegem as ilhas tropicais, esses leitos de ostras criaram as ondulações e o perfil do fundo do porto que quebra a ação das ondas antes de elas despencarem sobre a costa com toda a sua força. Os leitos mais próximo da costa purificaram a água graças à sua assídua filtragem - uma única ostra pode filtrar cerca de 200 litros de água por dia. Isso permitiu o crescimento de plantas aquáticas, contribuindo, por sua vez, para proteger as margens com sua extensa estrutura de raízes.

No entanto, 400 anos de péssimo comportamento por parte do homem destruiu tudo isto. Como Mark Kurlansky explica detalhadamente em seu belo livro The Big Oyster, (A Grande Ostra, em tradução livre) em 300 anos de permanência nestas plagas, os colonos consumiram e praticamente levaram à extinção quase a metade das criaturas selvagens. Escavamos o leito natural em todos os cursos de água da Grande Nova York e queimamos as conchas das ostras para produzir cálcio ou as esmagamos para fazer leitos de estradas.

Depois de destruir a ostra selvagem de Nova York, os habitantes da baía passaram a criá-la. Logo, porém, os nova-iorquinos destruíram isto também. Sistemas de esgoto rudimentares descarregaram as bactérias portadoras do tifo e do cólera nos leitos de Jamaica Bay. Grandes indústrias lançaram toneladas de substâncias poluentes, como o bifenilo policlorado, e metais pesados, como cromo, no Hudson e no Raritan, tornando os frutos do mar daqueles leitos impróprios para o consumo. No final dos anos 30, as ostras de Nova York e todos os benefícios que elas proporcionaram, acabaram.

Felizmente, a ostra de Nova York está começando a voltar. Desde a aprovação da Lei da Despoluição dos Recursos Hídricos, nos anos 70, as águas do porto foram ficando cada vez mais limpas e, agora, os rios apresentam um teor de oxigênio que permite que as ostras vivam. Nos últimos dez anos, colônias limitadas de larvas de ostras naturais fixaram-se nos vários cursos de água que constituem a Baía de Nova York.

Juntamente com os esforços da natureza, um consórcio de organizações que inclui a Hudson River Foundation, a New York-New Jersey Bay Keeper, a Harbour School e o Army Corps of Engineeers colaborou para a criação de uma série de recifes de teste em toda a baía. Contudo, é quase certo que tempestades como o Sandy se tornarão mais fortes e mais frequentes no futuro e nossas costas ficarão mais vulneráveis. No caso da atual tempestade, tudo o que podemos fazer é estocar alimentos enlatados e encher a banheira. No entanto, para as tempestades que ainda virão, será melhor começar a criar muito mais ostras. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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