Thaier Al-Sudani/Reuters
Thaier Al-Sudani/Reuters

Otan aceita que Kadafi fique na Líbia

Aliança exige renúncia incondicional de ditador, mas diz não ser contra sua permanência no país

, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2011 | 00h00

PARIS

Em nome das potências que conduzem a ofensiva contra o regime da Líbia, a França disse ontem que aceita a permanência do ditador Muamar Kadafi no país, desde que ele entregue o poder. O anúncio foi feito pelo ministro das Relações Exteriores francês, Alain Juppé, em um sinal de que a Otan tenta agora novas saídas para encerrar os cinco meses de operações na Líbia.

"A questão agora não é "se" Kadafi vai embora, mas "quando"", disse o chefe da diplomacia francesa. "Um dos cenários que estão sendo levados em consideração é a permanência (de Kadafi) na Líbia sob uma condição que repito agora: que ele, de forma muito clara, se afaste da vida política líbia."

À frente dos esforços diplomáticos está o enviado da ONU para a Líbia, o ex-chanceler jordaniano Abdul Elah al-Khatib. Ele disse estar mantendo contatos com o governo de Kadafi, mas negou que emissários do ditador estejam na capital francesa para negociações diretas.

Em Washington, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, afirmou que Kadafi "deve se desligar do poder e, então, caberá ao povo líbio decidir" o destino do ditador. O governo de Kadafi imediatamente rejeitou a proposta anunciada pelo chanceler francês. Segundo Trípoli, a saída do ditador - há 41 anos no poder - está fora de questão.

Um funcionário da ONU disse à agência Reuters que Khatib deve ir à Líbia na próxima semana. O ex-chanceler jordaniano já sentiria "um clima favorável em Trípoli para discutir as propostas que ele está apresentando", afirmou a fonte, em condição de anonimato.

Front. Após uma semana de avanços na ofensiva rebelde, forças anti-Kadafi sofreram ontem pesadas baixas em combates pelo controle da cidade portuária de Brega, a cerca de 700 quilômetros de Trípoli. Em um dos dias mais sangrentos de luta, oito rebeldes teriam morrido e 150 foram feridos. "Ontem foi um desastre", disse o médico Sarahat Atta-Alah, que coordena um hospital de Ajdabiya, na zona de combate.

Forças da oposição também relataram confrontos em Misrata, reduto insurgente dentro do território líbio ainda controlado por Kadafi. Segundo fontes médicas locais, sete rebeldes morreram e 35 ficaram feridos. Não há informações sobre baixas dentro das forças do regime. Um médico de Misrata afirmou ter visto pelo menos um soldado leal ao ditador morto.

O secretário-geral da Otan, o dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, afirmou ontem que as tropas anti-Kadafi conseguiram avanços significativos no leste e no oeste. Segundo o chefe da aliança atlântica, as duas fileiras que avançam devem se encontrar em breve. "Acredito que continuará havendo progresso porque as forças de oposição estão agora mais experientes, com melhor treinamento e coordenação", afirmou Rasmussen. / REUTERS

PARA ENTENDER

Resolução da ONU é ambígua

A resolução 1.973 do Conselho de Segurança da ONU, que autorizou em fevereiro a ofensiva na Líbia, não deu aval a potências ocidentais para derrubar o ditador Muamar Kadafi. Um texto desse tipo violaria o princípio internacional de não interferência em assuntos internos de um país. A resolução previa a imposição de uma zona de exclusão aérea e um cessar-fogo imediato. A parte mais ambígua do texto autorizava o uso de "todas as medidas necessárias" para a proteção de civis - brecha que a Otan usa para justificar sua pressão pela queda de Kadafi.

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