Otan decide que sairá do Afeganistão em 2014

Missões de combate no país, porém, devem ser encerradas em meados do ano que vem

DENISE CHRISPIM MARIN , ENVIADA ESPECIAL / CHICAGO, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2012 | 03h05

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estabeleceu para meados do ano que vem o fim dos combates no Afeganistão. As tropas da força de coalizão comandada pelos EUA continuarão no país até 31 de dezembro de 2014, com a missão de treinar, assessorar e aconselhar as forças policiais e militares afegãs. Mas caberá ao governo do Afeganistão assumir a liderança das operações e responsabilizar-se pela segurança da população.

A decisão consta do comunicado final da reunião de cúpula da organização, no domingo, e também da declaração do encontro de ontem dos 50 países da coalizão em combate no Afeganistão. Trata-se da posição dos EUA, expressa pelo secretário de Defesa, Leon Panetta, durante um encontro de ministros da Otan em fevereiro, em Bruxelas. Ontem, ao encerrar os dois dias de discussões sobre o Afeganistão em Chicago, o próprio presidente dos EUA, Barack Obama, reconheceu ser ainda o Taleban "um forte inimigo".

"Os relatórios que recebi (do Pentágono) mostram que houve uma melhora considerável na situação no Afeganistão. Houve uma melhora genuína nas tropas do Afeganistão. Mas o Taleban ainda é um forte inimigo", afirmou, ao ser questionado sobre se não haveria descompasso entre os relatos do Departamento de Defesa e o que está se passando no front. "O Afeganistão não vai nunca estar preparado se não assumir a responsabilidade por sua segurança", completou.

Obama disse que antevê "riscos" e "dificuldades" nos próximos dois anos. Mas essa solução acomodou a pressão de vários membros dos 50 países da coalizão, sobretudo da França, pela retirada das tropas antes do prazo final de 2014. Em Chicago, o novo presidente francês, François Hollande, manteve o compromisso eleitoral de retirar os 3.400 militares franceses até dezembro. Nem o presidente Obama nem os demais líderes da Otan foram capazes de fazê-lo recuar e manter os franceses até pelo menos o final de 2013. A Austrália, que não é membro da Otan, mas da coalizão, é um dos países que deve seguir o exemplo francês.

O Afeganistão já ingressou na terceira etapa de transição, com capacidade atual de prover segurança a 75% de sua população - na região de Cabul, no norte e no oeste do país. A cobertura restante terá de ser alcançada por suas forças até meados de 2013. Um ano e meio depois, em dezembro de 2014, o Afeganistão deverá contar com cerca de 350 mil policiais e militares preparados para enfrentar uma guerra civil que, inevitavelmente, continuará. "Vamos trazer nossas tropas de volta de maneira responsável", prometeu Obama ontem.

Conforme os documentos divulgados ontem e as declarações do secretário-geral da Otan, Anders Rasmussen, a aliança atlântica não abandonará Cabul à própria sorte depois da retirada das forças da coalizão. "A Otan terá uma nova missão e um novo papel no Afeganistão depois de 2014", afirmou Rasmussen, referindo-se à provisão de treinamento e equipamentos às forças afegãs. O problema está em como organizar a retirada.

Ao Paquistão caberá prover rotas menos custosas para a Otan, sobretudo para os EUA, retirar um volume estimado de 60 mil contêineres de equipamentos militares do Afeganistão no final de 2014. O acordo esperado para Chicago não saiu, e as negociações continuam em impasse. Convidado pela Casa Branca para a reunião de cúpula, o presidente paquistanês, Asif Ali Zardari, teve apenas dois breves encontros com Obama, nos corredores. Mas, diante da imprensa, o presidente americano não escondeu a frustração.

"Enfatizamos que o Paquistão tem de ser parte da solução (para o fim do conflito no Afeganistão", afirmou Obama, para, em seguida, sublinhar que há um "desafio real" na relação entre Islamabad e Washington.

Rasmussen afirmou que é um "desafio logístico enorme" retirar equipamentos e tropas por outras vias, como a atual rota pela Rússia e ex-repúblicas soviéticas. Os US$ 4,1 bilhões a serem destinados ao Afeganistão, a partir do começo de 2015, continuam igualmente indefinidos. Os EUA não querem doar mais do que US$ 2 bilhões, e as doações anunciadas pelos demais países não completa o restante. O secretário-geral da Otan admitiu ontem não saber se os recursos serão administrados pela Otan ou pelo novo governo afegão, que será definido nas eleições de 2014.

Protestos. Os protestos contra a guerra no Afeganistão continuaram ontem diante da sede de campanha de reeleição de Obama, e os escritórios da Boeing em Chicago. Cerca de mil indignados carregavam cartazes dizendo "Comida, não bombas" e deitaram-se nas ruas, fingindo-se de mortos na frente dos dois edifícios.

Não houve incidentes, segundo a polícia de Chicago. As vidraças dos andares mais baixos do prédio da Boeing haviam sido previamente cobertas com painéis de alumínio. Policiais inspecionaram os locais próximos do edifício com cães farejadores, em busca de explosivos. Os empregados de empresas com escritórios no centro de Chicago foram aconselhados a trabalhar de suas casas ontem.

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