Otan e o risco nuclear

Países-membros devem definir estratégia para evitar que armas atômicas táticas caiam nas mãos do terror

Sam Nunn, The International Herald Tribune, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2010 | 00h00

Nos últimos 20 anos, nenhum local passou por uma transformação tão drástica quanto a área compreendida entre o Atlântico e os Urais. Durante a Guerra Fria, uma guerra convencional e nuclear devastadora no continente europeu constituía uma possibilidade bastante concreta; hoje, nenhum país enfrenta este tipo de ameaça deliberada.

Apesar destes desdobramentos positivos, as duas maiores potências da região - EUA e Rússia - ainda dispõem cada uma de milhares de armas nucleares, e mais de 90% do estoque nuclear do mundo. Muitas destas armas continuam posicionadas ou destinadas a ser usadas na região euro-atlântica, incluindo pequenas armas táticas nucleares - o sonho de todo terrorista.

A redução e eliminação desta infraestrutura nuclear da Guerra Fria é o ponto principal de um problema inacabado de uma era já distante, e deveria tornar-se uma das principais prioridades da área política.

Hoje, é imprescindível que tanto a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) quanto a Rússia adotem imprescindíveis medidas de segurança em relação a estes armamentos.

Se não resolvermos urgentemente o problema, um dia poderemos acordar num cenário semelhante ao das Olimpíadas de Munique de 1972, com um terrorista mascarado agitando uma metralhadora na frente a um bunker equipado com uma ogiva nuclear em alguma parte da Europa. Desta vez, os reféns poderão ser os milhões de pessoas que vivem em suas proximidades.

A partir de sexta-feira, os líderes da Otan estarão reunidos em Lisboa por três dias para estudar a adoção de um novo Conceito Estratégico - o documento que estabelece o objetivo fundamental, as tarefas e a estratégia da organização.

O papel das armas nucleares na política de segurança da Otan - até mesmo a possibilidade de apoiar a instalação de algumas centenas de armas táticas nucleares americanas em seis bases de cinco países europeus - é uma das últimas questões ainda em discussão.

Estas armas táticas menores - atualmente não cobertas pelo controle de armamentos - são um item muito convidativo para os terroristas.

Por isso, propusemos que se inicie um diálogo com a Otan e com a Rússia sobre a consolidação de suas armas a fim de aumentar sua segurança, e como primeiro passo de sua cuidadosa contagem e eliminação.

É provável que a Otan adote um denominador menos comum em termos de linguagem no Conceito Estratégico, de acordo com o estribilho "enquanto existirem armas nucleares, a Otan continuará sendo uma aliança nuclear".

Provavelmente, será necessário muito mais tempo para que a organização resolva questões políticas fundamentais, incluindo alternativas para as armas táticas nucleares americanas, a fim de garantir e envolver os aliados da Otan, bem como uma estratégia para convencer a Rússia, com os seus estoques estimados em poucos milhares de armas deste tipo. Em Lisboa, os líderes da Otan deviam dar prioridade a este problema. O ônus da prova não deveria caber apenas aos que defendem a mudança, mas também aos defensores do status quo nuclear. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É JURISTA E DIRETOR DO NUCLEAR THREAT INITIATIVE (NTI)

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